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Viajando a Austrália:
Brisbane à Cairns
"Primeira Semana"

Os Preparativos da Viagem

A inspiração para a viagem surgiu porque nós tínhamos comprado umas coisas para melhorar o conforto em nossa Campervan e queríamos testá-las numa viagem de 30 dias pela Austrália. Também queríamos testar como seria editar um website de 1500 páginas como esse ao longo do caminho. Em outras palavras, experimentar como seria trabalhar enquanto se viaja ou vice versa. Por ser Inverno na Austrália, a viagem não poderia ser para outra região senão o Nordeste, área bastante tropical e cheia de coisas interessantes para ver e fazer. O melhor de tudo é que nessa época do ano não tem as mortais águas-vivas que impedem um simples banho de mar entre Novembro e Maio.

A primeira coisa que iríamos testar seria nosso Laptop, e ao mesmo tempo ver o progresso que a "Telstra", tem feito em relação as conexões Wireless e Banda larga em lugares remotos da Austrália. A segunda novidade seria um bote Inflável de 3 metros com motor de 5 hp, que poderíamos carregar em nossa Van, e montá-lo em qualquer praia pelo caminho. O terceiro melhoramento foi um toldo de plástico de 6X5 metros, que seria montado por sobre o carro, e assim nos proteger do sol ou chuva. A Celia achava que ele seria inútil e difícil de montar, e acabaria sem uso. A última novidade foi um freezer de 80 litros para substituir uma geladeira de isopor, e assim economizar A$ 6 de gelo por dia. A escolha entre um freezer ou uma geladeira foi muito difícil. Por um lado, tínhamos medo do freezer congelar tudo dentro, pelo outro, a geladeira poderia não gelar direito sob o calor tropical. Optamos pelo freezer, decisão muito acertada conforme vocês verão ao longo do relato.

Para arrumar espaço para todo esse material, tivemos que desmontar toda a configuração antiga, que era basicamente uma cama de casal com armários em baixo, e refazer tudo para acomodar, barco, motor, âncora, tanque de gasolina, além do toldo e ferragens. Além disso tinha o freezer, novos armários, e uma privada portátil para casos inusitados. O barco e o motor ficariam em baixo da cama de forma que pudéssemos tirá-los facilmente pela porta traseira. A privada também ficou debaixo da cama só que do lado oposto. O armário novo colocamos do lado direito, logo atrás do motorista, com gaveteiros para comida e material de higiene, e uma parte para roupas. O armário foi pré-montado à partir de módulos vendidos prontos, e foram parafusados juntos para depois serem instalados em definitivo no local. O que deu mais trabalho foi uma caixa de compensado para o Freezer, e parafusá-la devidamente no chassis da Van. Dessa forma, em caso de freiada brusca, o Freezer não iria parar no banco da frente ao nosso lado. A transformação completa durou uma semana e ficou boa e prática.

Antes da saída ainda tivemos tempo de levar a Van num mecânico para uma checada final. Após A$ 200 em troca de peças, o carro estava pronto para subir da Gold Coast até o Cape Tribulation, onde a estrada literalmente acaba. A previsão era de rodar um total de 4000 Km ida e volta, e passar em torno de 30 dias viajando morando dentro da Van. Nós havíamos feito essa viagem há 7 anos atrás com os filhos pequenos, e não nos lembrávamos muito de vários lugares. Tão pouco tínhamos ido ao Cape Tribulation e visitado o Daintree National Park, que é mais antiga e diversa floresta do mundo. Essa seria uma boa chance de recordar e fazer certas aventuras e explorações que não fazemos na época. Nossa Van é uma Ford Econovan Maxi, um metro mais longa que as Vans comuns.

A cama de casal tem 1.85 m. de comprimento e ocupa toda a largura da Van. A privada plástica de dois compartimentos, fica embaixo da cama é puxada para fora para uma eventual mijada noturna.

O toldão cobre todo o carro como uma garagem, e quando saímos para passeios, deixamos o circo armado no local.

Da Sunshine Coast à Boyne Island – 482 Km

Acordamos às 4:00 da manhã batendo os dentes de frio. Acendi a luz do carro e olhei o termômetro. O dito tremia tanto, que a agulha oscilava entre os 6 e 8 graus. Achei impossível para essa latitude pois mesmo no inverno a temperatura mínima deveria estar acima de 12 graus. Trouxemos um cobertor fino, afinal estamos indo para uma zona tropical. O cobertor estava debaixo da cama e teríamos que sair da Van para pegá-lo. Nem pensar. Liguei o motor e o aquecedor do carro para ver se melhorava a situação. Como já estávamos acordados e com o motor ligado, não faria a menor diferença engatar uma marcha e seguir em frente. Foi o que fizemos, e às 4: 30, ainda escuro, estávamos entrando na Bruce Highway, que é o nome que a estrada ganha desde a Sunshine Coast até Port Douglas no Norte da Austrália. Normalmente nunca viajamos à noite porque a quantidade de Cangurus saltitando na estrada é grande. Atropelar um bicho desses pode botar o carro e passageiros no hospital. Curiosamente não haviam muitos, e os poucos que vimos usavam casacos de pele de carneiro e meia no rabo. Esse trecho conta com uma excelente sinalização de pista, e com o farol alto parecia que estávamos em frente a um telão de video-game.

Antes da cidade de Gympie a coisa ficou feia. Uma neblina saiu das sombras, e não dava para enxergar um palmo adiante do nariz. Vi vários carros parando, e fiz o mesmo. Um carro que vinha atrás não percebeu que todo mundo estava parado, e freiou forte. Me contraí esperando a batida mas ele parou a tempo. Todos esperaram pacientemente, e 10 minutos depois a nuvem sombria se dessipou. Todos começaram a andar, inicialmente devagar, mas aos poucos aumentando a velocidade até chegar aos 100 Km/h, já sem nevoeiro nenhum. Após Gympie, a estrada continua boa mas torna-se chata porque não há nada de interessante para se ver por uns 200 Km até a cidade de Maryborough. Essa cidade é um dos pontos de acesso para a baía de Hervey, onde todos os anos muitas baleias vêm fazer fuc fuc sem camisinha para procriar. Existem vários tours de barco para os Voyers (ver baleias). Decidimos continuar viagem, pois já conhecemos muito bem toda essa região. Por esse mesmo motivo, também deixamos a cidade de Bundaberg para trás.

Já era quase meio dia, e estávamos no município de Mirian Valle, entrada para a fabulosa praia de 1770. Nós estivemos nessa praia várias vezes e resolvemos deixá-la para pernoitar na volta. Na velocidade limite de 50 Km/h na área urbana de Mirian Valle, resolvemos parar numa lanchonete que anunciava bem grande “ The best Meat Pie in Australia”.  Essas tortinhas de carne são obssessão dentre os Australianos, e o cardápio dessa lanchonete continha muitas variedades, como galinha, carne moída, carne assada, camarão, cogumelos, e por aí vai. Escolhi a de carne assada e a Celia a de cogumelos. Ambas estavam deliciosas e combinadas com suco de maçã, sentimos imediatamente que a viagem doravante seria turbinada. Demos um tempo na cidade caminhando para ver as vitrines e ao mesmo tempo esticar as pernas, mas a cidade acabou muito antes da digestão. Aproveitamos para encher o tanque pela segunda vez (a primeira foi quando saímos), e isso queria dizer que já havíamos rodado uns 500 km.

Não sei porque, mas nunca tive curiosidade de conhecer a cidade de Gladstone. Na viagem que fizemos há 7 anos atrás, passamos direto tanto na ida como na volta, e dessa vez não tinha perdão. Já estava ficando cansado de dirigir, e olhando o mapa, vi que ainda faltavam 130 km para Gladstone. Ao mesmo tempo, percebi que haviam duas cidades pequenas logo antes, ambas à beira mar. Nunca havia escutado ninguém falar de Tannun Sands e Boyne Island, e por isso ficou decidido que seria lá que iriamos pernoitar. Antes de sair da Bruce Highway, a Celia me disse que tinha escutado um passarinho falar que a cidade de Calliope era considerada histórica e era muito bonita, com construções Victorianas e arquitetura bastante preservada. Resolvemos dar uma esticada de 25 Km até a cidade. Quando chegamos não vimos nada, pelo contrário, achei a cidade sem atrativos a não ser um hotel.  Continuamos um pouco mais à frente e chegamos numa pequena vila com umas 20 casas bem rústicas, alem de um celeiro e uma carpintaria. A pequena vila foi inteiramente preservada desde o início da colonização, e entendemos o valor histórico, mas realmente não tinha nada que tenha nos chamado a atenção. Decepcionados e xingando o passarinho de mentiroso, pegamos a estrada de volta para Tannun Sands. Na vinda tinha visto um 4 x 4 cinza escondido no mato, e sabendo que era a polícia operando um radar, passamos com o ponteiro em cima dos 80Km/h, a máxima permitida no trecho.

Chegamos em Tannun Sands por volta das duas da tarde. A cidade é pequena e jeitosa, cheia de casas novas sendo construidas, um sinal de que está crescendo. Continuamos na rua principal até chegarmos num mirante, donde se podia ver a praia e um parque à beira mar. Pela primeira vez tive certeza que a viagem havia começado, pois o mar parecia ser um lago, por causa da proteção da Grande Barreira de Corais. A Barreira segura todas as ondas em alto mar, e torna toda essa região um paraíso para barcos de todos os tipos e tamanhos. No mirante havia também uma rosa dos ventos em bronze, com as indicações do Norte verdadeiro e magnético. Aproveitei o achado para aferir nossa bússola de bordo. Em seguida, descemos uma pequena escada que dá acesso ao parque e a praia. A primeira coisa que fiz foi tirar a camisa e dar um mergulho. Ficamos boiando naquelas águas mornas até relaxar. No horizonte, uma fila de navios aguardava para aportar, pois Gladstone é um das maiores exportadoras de minério da Austrália. Contamos 23 deles.

De Tannun Sands fomos para Boyne Island, que realmente é uma ilha, ligada tanto a Tannun e a Gladstone por duas pontes. Não tínhamos mapa dessa cidade, e após procurar um centro de informações turísticas sem sucesso, resolvemos perguntar onde ficava o Caravan Park. O problema é que não tinha alma viva na rua para perguntar, e quando parávamos num sinal, só chegava um outro carro bem na hora que o dito do sinal abria. Nos perdemos uma ou duas vezes rodando em círculos, até que vi uma loja de bebidas, e paramos para pedir informações. O sujeito tinha me explicado duas vezes e eu ainda não entendia bulufas. O sotaque do cara era de fazer criancinha chorar de tão ruim que era. Só me lembro de entender "turn left and right" de resto mais nada. O magnânimo parecia não entender que não éramos locais, e dava pontos de referência do tipo, “Açougue do Jeff”. Ora bolas, não conheço o Jeff, muito menos sei onde fica o açougue dele. Como posso entrar à esquerda lá? De qualquer forma agradeci e  comprei um "block" de cerveja, ou seja, uma caixa com 30 latas que custou A$ 35, enquanto na Gold Coast costumo pagar A$ 29. Acho que a não informação prestada custou 6 dólares a mais, mas a verdade é que o preço de gasolina e muitas outras coisas, são mais caros ao norte e em regiões rurais.

Finalmente depois de perguntar outras duas vezes, chegamos ao dito Caravan Park. Veio um cara magro alto, com cara de fazendeiro nos atender. Eu também não estava entendendo nécas de pitibiribas do que ele falava, e achei que teria que me acostumar com aquele sotaque que parecia mais de Vanuatu do que da Austrália. Pelo menos ele percebeu o ponto de interrogação em nossa testa, e passou a falar pausado. Fiquei impressionado com a bondade do sujeito. Ele nos levou até o local que iríamos ficar, nos ajudou a conectar o fio de energia na tomada, nos mostrou a cozinha, como ligava o gás, a cafeteira, a churrasqueira, e já ia me dar uma aula sobre o funcionamento do microondas, quando eu disse num tom quase implorativo que eu precisava mijar urgentemente. Ao voltar, vi de longe que a Van estava completamente fora de nível, e mudei ela de posição senão iríamos dormir de cabeça para baixo. Satisfeito, abri uma cerveja e fui dar uma volta no Caravan Park.

No folheto do Caravan Park dizia que eles tinham uma rampa para lançar barcos, e fui lá conferir. A rampa dava para um rio, e a maré estava baixa, deixando à mostra somente uma lama avermelhada. Eu queria testar nosso bote inflável no dia seguinte, mas com aquela lama, a cagada ía ser geral. Nisso chegou um sujeito com uma vara de pescar, e imediatamente me cumprimentou da maneira Australiana com um belo G’day. Eu respondi com o classico “How is it going?” Conversamos um pouco enquanto ele preparava as iscas, e ele me disse que estava participando de um campeonato de pesca, e havia tirado o primeiro lugar. Achei que era conversa de pescador, mas o fato foi que em menos de dois minutos ele já havia pescado um bom peixe, e logo em seguida outro, e outro, e outro. Fiquei curioso sobre que isca ele usava, e ele me deu uma aula completa, não só sobre iscas, mas também sobre a forma correta de prender o anzol. Outra coisa que me chamou atenção era que ele conseguia jogar a linha atrás de uma pedra com precisão. Quando perguntei se o anzol não iria prender na pedra, ele respondeu que um anzol custa menos de 10 centavos e os peixes uns A$ 15 cada. Em 20 minutos ele havia pego 5 peixes e perdido 3 anzois. Isso é o que se pode chamar de excelente razão custo/benefício. A Celia já havia tomado banho e eu fui tomar o meu. Na volta, ela estava conversando com uns vizinhos do Caravan Park, e me juntei à eles. Quando escureceu, cozinhamos um Gnocci com molho de tomate bem Italiano, que ficou delicioso. O jantar caiu muto bem para esse longo dia, e às 8 da noite já estavamos entregues aos braços de morfeu...

De Boyne Island à Clairview – 450 Km

Acordamos às 5 horas da manhã e o céu estava estrelado com as primeiras luzes do dia ainda para raiar. A temperatura estava beirando os 9 graus, e era realmente muito difícil acreditar que estava tão frio praticamente nos trópicos. De qualquer forma a noite foi melhor porque além do cobertor tínhamos nos precavido com uma coberta extra, e colocado roupas mais quentes além de meias. Descobrimos que na noite passada esquecemos de comprar leite, pão e ovos para o café da manhã, mas tínhamos queijo, presunto, e biscoitos, que foram devidamente traçados junto com café puro. Preparamos a Van para sair, e por volta das 7:00 estava tudo pronto. Passeamos um pouco por Boyne Island e voltamos a Tannun Sands para tirar algumas fotos. Na volta, paramos num posto de gasolina onde tinha um pequeno supermercado e compramos comida para uns dois dias. Seguimos então para Gladstone numa estrada inicialmente boa, mas que depois ficou bastante estreita com muitos veículos nervosos, pois era a hora do "Rush" matinal e as pessoas corriam para o trabalho como alegres ratinhos. Nos lembramos que na Austrália existe uma gíria para definir a correria por grana, chamada de "Rat Race", ou seja, corrida de ratos. Pior é que parecia mesmo. 

Chegamos em Gladstone cedo, mais ou menos 8:30 da manhã e o centro de informações turísticas ainda estava fechado. Decidimos dar uma volta a pé para fazer hora, mas não vimos nada que nos chamasse a atenção. Havia uma montanha de minério bem alta perto do porto, e uma indústria soltando uma fumaça bem poluidora. A cidade parecia parte de um subúrbio de qualquer cidade da Austrália, e não vimos qualquer construção que se destacasse por uma arquitetura mais arrojada. De posse de um mapa, saímos de carro para explorar outras partes da cidade. O centro é constituido por ruas paralelas com o porto na frente, e a rua principal com prédios de 2 andares pintados em cores alegres e com árvores na frente. Do centro fomos ao porto, onde vários navios de grande porte estavam atracados carregando minério. Tiramos algumas fotos e descobrimos que não havia mais nada para fazer em Gladstone, pelo menos como turistas. Como ainda era cedo, optamos por continuar viagem, e quem sabe voltar em outra oportunidade desde de que nos paguem dois milhões de dólares, ou mais.

Pegamos a estrada da saída Norte ao invés de retomar para Bruce Highway, decisão essa que nos faria economizar uns 40 quilômetros. Essa parte Norte de Gladstone é feia, praticamente só com indústrias de maquinário pesado para exportação de minérios e usinas de geração de energia. Nos dois lados da estrada, um pântano deixava a mostra uma lama escura por causa da maré baixa, e que cheirava a óleo diesel batido no liquidificador com ovo podre. Finalmente pegamos a estrada que conecta com a Bruce Highway, só que a alegria durou pouco. Apesar da estrada ter iniciado boa com limite de velocidade de 100 km/h, ela tem um movimento pesado de carretas, incluindo carretas com reboques. Ainda por cima tem vários pontos onde a ferrovia cruza a estrada. Numa fila indiana atrás das carretas, nossa velocidade não passava de 65 km/h, e não havia um ponto sequer para ultrapassar. Mesmo que ultrapassasse uma carreta, ainda teríamos umas outras 10 pela frente. Acabei tendo que me conformar em seguir o comboio que nem tartaruga caquética. De repente para o meu espanto todas as carretas entraram numa estrada lateral, e ficamos felizes como se tivéssemos ganho na loteria. Gastamos todo o dinheiro em 10 minutos, pois logo na frente tinha um casal rebocando uma Campervan enorme e novamente a 65 km/h. O sujeito era tão velho que balançava para frente e para trás. A  velocidade ía dos 45 aos 80 k/h parecendo um ioio. Entramos na Bruce Highway de novo atrás do véio, mas logo conseguí ultrapassá-lo. Daí em diante tudo ficou bem, e apesar de não ter nada de interessante para ser ver na estrada, pelo menos sentíamos um grande alívio de ter saído de Gladstone.

Chegamos em Rockhampton às 11 da manhã, e paramos para comer alguma coisa. Rockhampton é famosa por ser a capital Australiana do bife, ou seja, lá produz-se muito gado de corte. Rockhampton também é bem mais bonita, maior, e mais interessante que Gladstone. Um rio corta a cidade, e muitos parques com muitas árvores balanceiam muito bem o visual com construções e shoppings de desenho moderno e arrojado. O antigo também tem vez, como a Igreja, uma das mais bonitas que vi na Austrália (foto no topo da pagina). No entanto, a cidade tem uma leve fragância de cocô de boi, pois é um tal de caminhão passar cheio de filé mignon indo pro abatedouro, que deixa um odor peculiar no ar. Se você quiser virar vegetariano basta seguir de perto um caminhão desses. O pior é que o cheiro parece que gruda no estofamento e nas roupas e por muitos quilômetros adiante, institivamente eu ainda olhava a parte de baixo das minhas legítimas havaianas, para ver se tinha pisado numa bosta bovina.

Cruzamos a ponte para a parte Norte, e ficamos por um tempo discutindo se íamos parar nas famosas grutas (The Caves) que ficam 28 Km depois de Rockhampton. Como já visitamos um monte de grutas antes, resolvemos não gastar os A$ 50 do ingresso e seguir na estrada. Rockhampton tem uma espécie de balneário de praia chamado Yeppon que fica mais ou menos à 40 Km no litoral, mas resolvemos deixar para visitar na volta. Logo depois das grutas a estrada ficou lenta e estreita. Até que não tinha muitos carros, mas parece que aquele seria um dia para testar minha paciência, pois novamente fiquei preso atrás de caminhões, caravans, e até mesmo de um trator que andava alegremente à 30 km/h numa estrada cheia de curvas. Passei a ter ódio desse tipo de viatura. A título de curiosidade, minha Van tem um motor de somente 2000 cc, e isso quer dizer que não tenho aceleração e torque, principalmente em subidas. A Van chega à 130 ou mais, mas eu tenho que estar no plano ou numa descida para efetuar ultrapassagens com segurança. Se você me perguntasse em quantos segundos minha Van vai de 0 a 100 km por hora, minha resposta seria..."Tres dias, 8 horas, e 59 segundos". Isso dito, não é difícil imaginar o pé no saco duplo que esses trechos foram. 

Paramos num posto de Gasolina no meio do nada para abastecer. Tinha uns 3 carros parados. Tanto eu quanto a Celia fomos ao banheiro, e depois pegamos a estrada novamente. Quinze minutos depois, a Celia vira-se para mim e diz..." Volta! Não consigo achar meus óculos, acho que caiu no chão do banheiro". Voltei até o posto e ela procurou tudo e não encontrou. Foi na gerência perguntar se alguém tinha achado e nada. Reviramos a Van mais uma vez, bolsas, porta-luvas, etc,,, e nada. Comecei a recordar dos eventos antes da gente sair do posto, e me lembrei que logo que ela saiu do banheiro entrou uma loura com cara de quem esta vivendo do seguro social. Não tive dúvidas que ela vendo aqueles óculos escuros "da moda", de ótima qualidade, e que custaram caro, embolsou o dito. O que a loura não sabia e que os óculos eram de grau, de forma que a Celia pudesse revesar comigo no volante. Em outras palavras, os óculos íam ser inúteis para a loura. Me lembrei também que só um único carro ainda estava no posto na hora que saímos, o dela. Sem mais o que fazer, voltamos para a estrada com a Celia totalmente incorformada com o vacilo.

De saco cheio de dirigir e putos da vida com o episódio dos óculos, resolvemos para num lugar à beira mar chamado Clairview. Tem umas 50 casas, um Caravan Park, e é tudo. A praia da frente é muito bonita, e o ambiente no Caravan Park muito interessante. Parecia um clube dos sessentões. No bar do Caravan Park, os coroas estavam se divertindo, tanto homens quanto mulheres, todos bem humorados, e de posse de um copo de cerveja na mão. Resolvemos participar, e decidimos pernoitar no Caravan Park. Ainda faltavam 120 Km para Sarina, e eu não teria mais saco de pegar a estrada de novo naquele dia. Colocamos a mesa e cadeiras para fora, abri uma cerveja, xingamos até a última geração da loura, e passamos o resto da tarde curtindo o sol que estava delicioso. Como sempre acontece em Caravan Parks, um dos vizinhos veio puchar conversa, e conhecemos um casal bem mais velho talvez nos 70 anos, que estavam viajando a Austrália por 1 ano. A Caravan deles foi construida nos anos 80, e eles nos convidaram para entrar. Descobrimos que a Caravan tinha muito mais espaço e era bem melhor distribuida internamente que muitas das modernas. Ficamos um tempão batendo papo, e eles nos deram um monte de dicas de lugares para visitar e para dormir. Todas as dicas se provaram valiosíssimas mais adiante.

A noite caiu após um por do sol muito bonito, e o céu ficou totalmente estrelado, além da temperatura estar uma delícia nos 24 graus, não tinha vento. Para o jantar cozinhamos arroz com tomate, cebola, e pimentão para acompanhar com um peixe defumado que havíamos trazido de casa. O resultado foi um prato de restaurante, tão gostoso que não sobrou nem um grão para contar a história. Deitamos na cama às 8:30 da noite. Eu fui dormir, enquanto a Celia resolveu ver um DVD no nosso laptop, cujo título talvez tenha sido "A lôra Zarôlha".

Rockhampton, a terra do boi babão com káka fedorenta. Cruzando o Trópico de Capricórnio. Será que o frio de manhã cedo vai acabar?

No Caravan Park de Clairview faltam vasos para plantas A Estrada de Ferro passa logo atrás do Caravan Park e quando o trem passa parece terremoto.

De Clairview à Bucasia beach – 250 Km

A noite passada foi estranha. Acordamos um monte de vezes. Primeiro por um trem de minério com uma infinidade de vagões passando à cerca de 50 metros de nosso "site" no Caravan Park. O chão tremia como um terremoto. Lá pelas 4 da manhã, acordei de novo com algo batendo contra a Van. Saí do carro para ver o que era, e não levei muito tempo para descobrir que a toalha que deixamos secando pendurada no espelho, estava batendo freneticamente contra a porta do carro. O vento estava forte e o céu não tão estrelado quanto quando fomos dormir. A temperatura estava bem mais quente que os dias anteriores e o termômetro marcava 14 graus. Tudo indicava uma mudança de tempo. De qualquer forma voltei prá cama e dormi de novo.

Acordamos com o sol nascendo. Olhei um clarão vermelho no horizonte e munido da camera fui para a praia fotografar. O espetáculo do nascer do sol foi bonito, pois como haviam algumas nuvens balançando no céu, o reflexo das cores era variado. A maré estava baixa, colocando à mostra os corais com poças d’água no centro, e eles também refletiam luz. Voltei para a Van para preparar o café da manhã, e a Celia estava saindo para o banheiro. Falei sobre o nascer do Sol e ela foi lá conferir. Resolvi fazer uns omeletes de queijo e tomate, pois acordei com fome. O vento ainda estava forte, e preparamos a Van para partir. Nossos vizinhos também iam zarpar, e combinamos de nos encontrar no Caravan Park de Bucasia Beach, ao norte de Mackay.

Saimos às 8:00 da manhã, e a estrada estava bem vazia, aliás, aprendemos que a melhor hora para pegar a estrada na Austrália é entre 6:00 e 10:00 da manhã, pois só tem caminhão, e eles sentam o pau. Depois disso entram os "Grey Nomads" ou seja, a velharada aposentada que vende casa, tudo, e ficam eternamente rodando a Austrália em trailers, usualmente à despreocupados 70 Km por hora em estrada de 110. Mas essa estrada estava ótima, vazia, com excelente cobertura, e coisas interessantes para ver. O vento forte de Sul, dava a Van um empurrão à mais, nos poupando gasolina e fazendo com que o carro viajasse à 105 Km/h sem quase precisar tocar no acelerador. Os poucos veículos que vimos eram quase 80% caminhões, 10% de carros, e 10% de Caravans. Com o vento por trás, os caminhões me deixavam à ver poeira, e quando eu tinha uma Caravan pela frente, eu ainda tinha bastante curso no acelerador para passá-los facilmente. Esta sim é o tipo de estrada que dá prazer de dirigir. 

Os 120 Km de Clairview até Sarina foram feitos em pouco mais de uma hora, e às 9:30 da manhã já estávamos parados no "i" no Tourist Information pegando mapas e informações sobre a área. Aproveitamos para comprar um livro sobre os lugares onde pode-se pernoitar de graça na Austrália com uma Caravan ou Campervan. Este livro custa A$ 49 e tornou-se tão popular entre os "Grey Nomads", que deixou o autor rico. Afinal, o custo do livro se paga com duas noites de camping grátis. O lance é que ele listou em toda a Austrália, (e colocou nos mapas do livro) os lugares onde as prefeituras e governos estaduais permitem pernoitar, pois nao é toda as prefeituras que permitem. Oficialmente na Austrália só pode-se dormir ao relento em terras federais, que não são muitas, a não ser que você queira dormir em um dos desertos. Mesmo assim parte dos desertos são terras Aborígenes. Sarina tem praticamente uma única rua, que não é feia nem bonita. A cidade tem forte conexão com mineração, tanto que uma das estradas para Hay Point no litoral virou atração turística. O motivo é que essa localidade possui a maior estrutura de carregamento de minério no mundo, com esteiras que avançam mar adentro por sobre um pier de concreto, até se perder de vista no oceano (a amplitude de marés é gigantesca na área). Pode-se considerar essa facilidade uma das maravilhas do mundo em termos de coisas construidas pelo homem. De Sarina também saem estradas para duas outras belas praias, Grasstree e Campwin Beach. Como o céu estava meio nublado, resolvemos deixar para visitá-las em outra oportunidade. 

Seguimos para Mackay, e nossos planos eram de entrar na cidade para conhecê-la, pois nunca estivemos antes. Também queríamos fotografar algumas construções em Art-Deco que eles preservam por lá e são famosas. Quando nos aproximamos do centro, paramos numa loja do Tourist Information para pegar mapas etc..Mesmo com o mapa, entramos meio que perdidos na cidade, e quando paramos num sinal percebi que a temperatura do carro estava muito alta. O que sucedeu não dá para acreditar. Eu simplesmente não encontrava uma única vaga para estacionar. Tinha carro para todos os lados e o trânsito era extremamente lento devido a uma infinidade de sinais. O marcador de temperatura já tinha encostado no vermelho, e mesmo depois de entrar em ruas secundárias, eu ainda não havia encontrado um lugar que coubesse qualquer coisa maior que uma motorcicleta. Motoristas começaram a businar atrás de mim, coisa que para um australiano fazer é porque você está fazendo muita merda no trânsito.

Sem opção, entrei de quarquer jeito no pátio de um galpão comercial e desliguei o motor. Não passou 3 minutos e a porta do galpão abre com um pickup querendo sair. A luz da água estava vermelha no meu painel, e eu tinha que entrar de ré na rua novamente para o sujeito sair. Demorou um tempão, e eu estava começando a ficar nervoso, pois sabia que a qualquer momento o carro ia esfumaçar, quebrar, pegar fogo, ou fundir o motor. Andei uns dois quarteirões entrando à direita e esquerda, e nada de vagas. De repente vi um estacionamento de supermercado e entrei. Também não tinha vaga. Até que vi uma mulher saindo com compras, e quando ela chegou no carro dela eu me posicionei atrás trancando a rua. Tinha um monte de carros atrás de mim, mas de lá eu não saíria nem morto até entrar na vaga da mulher (sem trocadilhos por favor). 

Como não podia fazer nada até o motor esfriar, resolvemos entrar no supermercado e repor nosso estoque de comida. Aproveitei para indagar sobre um mecânico por perto. Quando voltamos o carro estava morno, e já deu para abrir o radiador. O dito estava completamente vazio. Peguei umas garrafas de plástico e enchi até a boca. Em seguida, deitei embaixo do carro para ver onde estava o vazamento. Nada, nem uma gota pingava. Inspecionei as mangueiras, correia do motor, e tudo estava em perfeito estado. Liguei o motor e esperei e em cinco minutos a temperatura voltou ao normal. Desliguei e me meti debaixo do carro novamente. Mas uma vez, nem uma gota pingava. Intrigado, mas de saco cheio do que aconteceu, resolvi seguir para Bucasia Beach, e largar aguele centro urbano estranho de Mackay que parece ter 850 mil carros para 85 mil habitantes e 85 vagas.

Bucasia Beach fica à 20 km ao Norte de Mackay, e foram feitos sem problemas apesar de eu não desgrudar o olho da temperatura, que agora estava mais normal do que nunca. Chegamos no Caravan Park onde havíamos combinado com nossos amigos de pernoitar, e tivemos um susto. A$ 31 por pernoite. Era o mais caro até então, pois temos pago entre A$ 20 e A$ 25. A dona disse que o preço era devido a alta temporada, por causa das férias escolares. Enfim, perguntamos por um desconto ou se havia outro Caravan Park nas imediações, e a resposta para ambas as perguntas foi não. Sem escolha, resolvemos ficar e tivemos uma agradável e outra desagradável surpresa quando chegamos no "site". A agradável é que o "site" era literalmente de frente para o mar, praticamente na areia, e a desagradável é que ele era espremido entre um árvore e uma família acampando. Cheguei a pensar em pedir para mudar, mas logo chegaram periquitos e patos para nos entreter, e a familia ao lado se mostrou bastante simpática.

Armamos a mesa e deixamos tudo pré pronto para o jantar. Nossos amigos chegaram, e contamos o que aconteceu em Mackay. Sem ficarem impressionados, ele contou que uma vez também penou para estacionar lá, e pior ainda, ele estava rebocando a Caravan que precisa do espaço de 3 carros para estacionar. Agora ele não entra mais na cidade e vem pela estrada do contorno. Pensei na situação dele, e imediatamente me senti melhor.  Abri uma cerveja, peguei a camera, e fui dar uma volta na praia. O lugar é bonitinho, mas nada que justifique o auê que fazem sobre a praia. Talvez porque a maré estivesse muito baixa, expondo um banco de areia enorme com alguns barcos no seco. O céu também estava um pouco nublado, mas parecia que o tempo ia abrir. Tirei algumas fotos e em seguida fui tomar um banho para tirar a inhaca de Mackay. Percebemos que algumas famílias no Caravan park estavam com as crianças indo para escola de uniforme, e eles contaram que estavam esperando alguma propriedade ficar vazia para morarem em Mackay. Devido a mineração perto, havia grande falta de residências para alugar. Depois fiz uma nova vistoria no carro tentando advinhar o que tinha acontecido, mas o mistério da água desaparecida continuou. O radiador continuava cheio até a boca. Conectei a energia elétrica e fui pro banho.

Quando escureceu fui fazer o jantar. Fiz um carré de porco bem magro, frito em duas gotas de azeite, acompanhado de arroz, batatas e creme de espinafre. Mais uma vez a comida estava uma delícia. Liguei o Laptop e conectei o cartão da TV, felizmente tinha recepção na área. Vimos as últimas notícias da Austrália e do mundo, e o reporter do tempo deu previsão de chuvas para o dia seguinte. Tudo o que nós queríamos é que eles estivessem enganados.

Foto panorama de Bucasia Beach na maré baixa

De Bucasia Beach à Townsville – 450 km

A meteorologia acertou e amanheceu meio nublado, mas sem chuvas. Fomos dar uma caminhada na praia antes do café da manhã e além de um pouco frio ventava um pouco. A praia estava feia sem sol, e na volta olhando para o Sul, dava pra ver que vinha chuva por aí. As nuvens estavam sinistras. Fiz um sanduiche de queijo e presunto na chapa e comemos com suco de manga. Dei outra olhada para o céu na direção Norte, e tinha um monte de buracos azuis. Assim arrumamos a Van para a estrada e passamos na Caravan de nossos amigos para dar tchau. Nossa idéia era de ir para o Cape Hillsborough, 30 km mais ao Norte, exatamente onde eu tinha visto o céu aberto. Esse lugar é um parque nacional, e é super bem recomendado. Disseram ser um dos mais bonitos nessa costa, onde inclusive encontra-se Cangurus na praia.

Abastecemos o carro dessa vez pagando A$ 1,25 por litro, preço que tem subido desde que saimos da Gold Coast. Na verdade, o certo seria A$ 1,31 mas paguei esse preço porque escolhi colocar o novo combustível que a Austrália esta tentando introduzir, o chamado "A10", porque contém 10% de álcool na gasolina. Já perguntei para algumas pessoas porque não gostam do A10, e eles sempre falam que é menos poluidor, mas que estraga o carro. Australiano é meio que ovelha, quando alguém fala alguma coisa todo mundo segue de olhos vendados. O A10 está sendo vendido primeiramente no nordeste da Austrália pelo simples fato de ser a área da cana de açúcar. Dirige-se centenas de quilometros somente com plantação de cana nos dois lados da estrada. Da cana fazem açúcar e Rum, mas ainda não aprenderam a fazer a cachacinha "marvada". Depois do posto o céu abriu e ainda andamos uns 10 minutos com tempo bom, mais logo em seguida o dito fechou de novo.

De Bucasia para se ir para o Norte, tem que voltar para Mackay. No entroncamento da estrada do contorno, tinha um moderno e novo shopping center. Resolvemos parar para comprar mantimentos, pois sabíamos que lá no Cabo não tem nada a não ser uma pequena venda. A Celia aproveitou para ir no Internet Café checar nossos emails, enquanto eu fiquei no carro escutando o rádio para saber mais sobre o tempo nos próximos dias. O cara do rádio disse..."I don't believe this is Mackay, 3 consecutive days of rain !" Como ele, eu também não acreditava que vinham 3 dias de chuvas pela frente, e fui na Internet checar um mapa do satélite GOES, que nunca mente. E não mentiu! Tinha uma nuvem gigante que vinha desde o norte da Austrália e cobria praticamente todo o nordeste do estado de Queensland. A única coisa que consegui pronunciar foi..."Celia estamos ferrados!" Ainda no estacionamento do shopping, debaixo de uma cobertura de aço, o céu caiu sobre nós. Não dava nem para escutar o rádio, tal o barulho que a chuva fazia na chapa. Tínhamos que tomar uma decisão....

A Celia chegou a conclusão que se fossemos ao Cabo, só iríamos ver os cangurus na praia usando capa e guarda-chuva, e assim o melhor seria subir para o Norte e ganhar tempo de estrada. Feliz da vida que minha mulher depois de 25 anos ainda raciocina, topei na hora. Quinze minutos depois já estávamos na Bruce Highway com destino à…não temos a menor idéia. Os planos de viagem foram pro beleléu e agora vamos para o que der e vier. O tipo de chuva deixava claro que tinha vindo para ficar. Não era forte nem fraca, mas sim de uma constância impressionante, perecida com a do chuveiro lá de casa.  A estrada estava boa apesar de bem molhada, e me pareceu que todo mundo estava com a mente em segurança, pois ninguém passava de 90 Km/h e haviam muitos carros e caminhões, todos respeitosamente em fila, trafegando sem ultrapassar e mantendo distância uns dos outros. Nem parecia aquela Austrália onde volta e meia alguém faz merda na sua frente, ou andam tão grudados na trazeira, que parecem que vão passar por cima à qualquer momento.

A única coisa que me incomodava era que nós estavamos chegando numa das mais bonitas e interessante partes da Austrália e no entanto estávamos passando direto. Até agora nosso bote inflável continuava que nem velha de 90 anos, enrugado e murcho na mala, e o indigesto motor de 5 HP ainda não deu nem um peidinho seguer. E assim passamos direto por Proserpine, e as Whitsundays, que é um conjunto de 74 ilhas ao estilo Angra dos Reis, e cuja praia principal Arlie Beach, é famosa mundialmente pelos agitos noturnos, bares, restaurantes, além dos incríveis passeios de barco. Passamos também Bowen, outro lugar imperdível no qual já tínhamos pernoitado na primeira viagem, e achamos lindo. Continuamos na estrada debaixo de chuva, só parando nos Tourist Information para coletar folhetos de atrações turísticas. Enchemos uma caixa de papelão de folhetos, e até cartas náuticas conseguimos "di grátis". Fizemos um lanche na Van, e como não me sentia cansado de dirigir, continuavamos rumo Norte.

Estávamos agora perto da cidade de Ayr, e para nosso deleite a chuva parou e a estrada secou, mais ainda continuava nublado. Estávamos planejando pernoitar em Ayr, mas lá não tem nada de interessante, e como eram 3:30 da tarde e faltavam só 88  Km para Townsville, perguntei para a Celia..."E aír ?!", e ela respondeu..." E Ayr que podemos esticar até Townsville. Com a estrada seca, deu para voltar aos 110 km/h e íamos progredindo muito bem. O céu abriu uma brechinha nas nuvens, e o Sol iluminou o asfalto. Mas a alegria durou pouco. Fiquei preso atrás de umas 3 Caravans murcêgas que desenvolviam a intrépida velocidade de 60 Km/h. A estrada estava bem movimentada nos dois sentidos, cheia de curvas, o que fazia de qualquer tentativa de ultrapassagem uma coisa extremamente perigosa e burra. E o pior, Townsville não chegava nuuunnca! O Tourist Information fica 5 Km antes da cidade, ainda na estrada, e lá paramos para saber sobre as acomodações disponíveis. Como tudo na Van estava um pouco úmido, pensamos em variar um pouco e ir dormir num hotel, mas o preço logo nos convenceu o contrário. Tinha um Caravan Park perto do centro por A$ 20 a noite, contra A$ 90 do hotel mais barato.

Chegamos no Caravan Park e a recepção estava fechada. Esperamos uns 15 minutos e nada. Uma boa alma veio em nosso socorro e foi buscar o responsável. O sujeito nos disse que não tinha “Powered Sites” que são os espaços que sempre usamos, com energia elétrica e água encanada, além de uma plataforma de concreto, onde pode-se armar mesa e cadeiras sem se atolar no chão. Quando ele olhou prá minha cara, acho que ficou com pena (ou medo) e arranjou um lugar com tudo que tínhamos direito, só que bem ao lado da cozinha comunitária do Caravan Park. Aceitei quase de joelhos dando benção ao céus, pois eu só sairía dali em caso de Tsunami. Mesmo com uns coqueiros muito altos carregados de coco bem em cima da nós, ali ficamos. Aqui vale uma nota que na Austrália morre mais gente por queda de coco na cabeça do que em ataques de tubarão, cobras venenosas, aranhas, águas-vivas e crocodilos, tudo junto. Mas como iríamos dormir dentro do carro e não fora dele, e carro não morre de coco na lata, só amassa, então não demos muita bola, mas procuramos ficar fora da mira daquelas suculentas coisas redondas.

A Celia tinha comprado carne moída e uma salada pronta no supermercado para o jantar, fizemos uns hamburgers na chapa e comemos com a salada. Depois, fomos até a recepção saber sobre acomodação na Magnetic Island, uma Ilha em frente a Townsville onde estivemos antes, e em nossa opinião um dos lugares mais espetaculares e gostosos da Austrália. O céu estava ainda nublado mas tinha vários buracos com estrelas, e pelo o que escutamos, os próximos dias seria bons com alguma chuva ocasional. Conseguimos reservar para o dia seguinte um "Powered Site" no mesmo lugar que estivemos antes na Magnetic Island por A$ 25 a noite, e também reservamos a balsa que levaria o carro por A$ 145. A balsa estava bem carinha para 30 minutos de travessia, mas queríamos tanto rever a Ilha que topamos na hora. Vimos um pouco de TV e fomos dormir umas 9 da noite.

De Townsville à Magnetic Island – 10 milhas

Sonhei que estava na estrada e na minha frente tinha um tanque de guerra andando à 30 km/h. Toda vez que eu tentava ultrapassar ele virava o canhão e atirava coco em mim. Com certeza as caravans lentas, o coqueiro em cima de nós, e as carretas do exército carregando tanques que vimos na estrada, embolaram a minha cabeça. De qualquer forma dormimos bem e acordamos bem dispostos. Comemos um sanduiche de queijo com banana com o resto do suco de manga e preparamos para partir. Tínhamos que estar às 9:00 no local de onde o ferry sai para a Magnetic Island. Já sabíamos que o ferry de veículos sai do outro lado do rio, mas mesmo com um mapa nos perdemos algumas vezes por falta de sinalização na área portuária de Townsville. De qualquer forma, não demoramos para encontrar o local, e chegamos em tempo de embarcar. O dia estava nublado mais parecia que ía melhorar.

Haviam 4 carros para fazer a travessia conosco, e a balsa leva cerca de 45 minutos para completar as 10 milhas náuticas que separam a Magnetic Island do continente. O nome Magnetic, vem da época que o intrépido Capitão Cook (aquele que falou a célebre frase..." Cook de bêbado não tem dono") ao passar ao largo da ilha, viu que a bússola de bordo ficou completamente maluca, e achou que a ilha tinha poderes magnéticos. Hoje ficou provado que era verdade, não no sentido de campos magnéticos, mas por causa das belezas naturais e das praias, que fazerm até siri suspirar. 

Depois que a balsa saiu o céu abriu um poco e iluminou a Castle Hill, montanha símbolo de Townsville. Na balsa, enquanto todos tomavam café e liam jornais na  pequena lanchonete, nós fomos para a terraço panorâmico. Não tinha ninguém lá, talvez pelo vento ainda um pouco frio. De longe, a Magnetic Island se mostrava com uma nuvem negra pousada em cima, e tudo que queríamos era que alguém soprasse aquelas nuvens para longe. Ao nos aproximarmos da ilha, vimos que a dita continua a mesma, exceto que mudaram o lugar que a balsa aportava para um novo terminal, que agora tem um complexo de prédios baixos simplesmente medonhos. Fiquei pensando como permitiram aquilo, mas meus pensamentos foram interrompidos pelos auto-falantes solicitando à todos os motoristas que regressassem aos seus veículos.

Chegamos e pegamos a única estrada que a ilha. A dita tem 19 km de extensão, e é uma estrada estreita que vai se espremendo em curvas morro acima e morro abaixo. A cada curva surge uma nova enseada, cada qual com uma praia de tirar o fôlego. Um terço da área da Magnetic island é classificada como área urbana, e o restante Parque Nacional. Fomos direto para o lugar que reservamos, e soubemos que o mesmo havia mudado de dono. De Geoff's Place mudou para Koala Sanctuary. Não reconheci a entrada, pois construiram uma marquise alta com velas de barco decorando e fazendo sombra na frente do restaurante e bar. Antigamente esse lugar era sempre lotado de galera do mundo todo, e todos os dias tinha um tema-noite, por exemplo, noite havaiana, onde pratos e drinks eram típicos do lugar e as pessoas se vestiam de acordo. Mas dessa vez não tinha muita gente lá, e acabaram com as noites com temas.

Contamos umas 30 pessoas e era só. Levando em conta que o lugar tem umas vinte cabines para até quatro pessoas cada, quartos para mochileiros, "sites" para  Caravans e Canpervans, e uma vasta área para acampar, o lugar estava praticamente deserto. Escolhemos um "site" bem espaçoso, cimentado, e bem nivelado, afinal iriamos passar uns 4 dias na ilha. Pela primeira vez nessa viagem não iríamos pegar estrada no dia seguinte. Resolvemos testar o toldão, e a montagem foi muito mais fácil que pensamos. Logo que acabamos, caiu um dilúvio. Choveu muito forte mesmo, e eu comecei a rir. Ri da sorte em ter acabado o toldo dois minutos antes da chuva, e também pela alegria de ver a minha teoria funcionando. O  toldo em forma de telhado com carro embaixo, barraria o vento e a chuva que viessem pelos lados. Deu certo, e  ficamos nós e o interior do carro, completamente secos. Mesmo com o dilúvio à um metro de nós, a água não respingava pra dentro.

Passamos o resto do dia relaxando e vendo a chuva cair. O cheiro de terra molhada impregnava o ambiente. O barulho da chuva caindo na mata era deveras calmante, e por incrível que pareça estavámos curtimos muito essa chuva, principalmente num lugar como esse. De repente escuto um trovão distante, cujo barulho foi aumentando de intensidade até se tornar insuportável. Parecia um avião, mas nunca na minha vida escutei algo tão alto. O chão literalmente tremia. Olhei para o céu e não vi nada, até que de repente saem das nuvens quatro Caças F-16 da força aérea australiana, voando em formação. Eles vinham à uns 100 metros de altura, com os trens de pouso abaixados prontos para pousar na base de Townsville. Esses caças nem precisam de mísseis, pois matam qualquer um de 'tímpanite aguda" só com o barulho. E não foi só a gente que se assustou. Uns cinco periquitos vieram para debaixo do toldo e resolveram ficar por lá. Tem um pousado em cima da tela do meu Laptop, conforme a foto ao lado.

Quando deu 6 da tarde e já escurecia, resolvemos ir fazer uma social no bar e restaurante do lugar. Eu pedi um chope gelado e a Celia um refrigerante de limão. Pedimos também uma porçao de fritas para beliscar, e ficamos de papo com pessoas que estavam lá. Eu ia pedir o segundo chope quando a Celia falou: "- Roger, tem cerveja no carro, deixa prá tomar lá. Aqui eles estão cobrando A$ 4 cada uma". Imediatamente entendi porque não tinha mais galera no lugar, pois o preço normal de um chope na Austrália é A$ 2,50, ou seja, eles estavam cobrando quase o dobro. Resolvemos voltar para a Van e comer e beber por lá. Um Possum, marzupial noturno que tem em abundância na Austrália, deu as caras para pegar as rebarbas de nossa tangerina de sobremesa. Os Possums possuem um olfato extraordinário, e são capazes de sentir cheiro de comida dentro de potes de vidro tapados. Eles se aproximam dos humanos sem medo, principalmente no Caravan Park onde já estão acostumados com as pessoas. A chuva ainda caía quando deitamos, e fomos assistir ao noticiário e ao reporter do tempo. Para amanhã, a previsão era de tempo bom com muinto Sol, mas nublando no final da tarde. Satisfeitos com a boa notícia, ainda assistimos um DVD antes de dormir.

Magnetic Island, primeiro dia

A Chuva parou completamente, mas ficou um vento forte de rajadas que me fez acordar de madrugada para acudir o toldão, que queria retornar à terra firme por conta própria. Dois prendedores com respectivas cordinhas se soltaram, e o toldo balançava freneticamente fazendo um barulho infernal. Munido de martelo e prendedores mais longos, fixei o dito de forma que se voasse ía ter que levar a ilha junto. Em seguida voltei pra cama e dormi.

Acordamos com o dia raiando e ainda ventava forte, mas quase não havia mais nuvens no céu. Quando olhei para a mesa, tomei um susto. Possums cagaram em cima do sagrado lugar em que comemos, além do chão ao redor. Não entendi essa vingança, pois tínhamos lavado a mesa com detergente, e não deixamos nenhuma comida fora, nem um saleiro sequer. Lavamos a cagada e já íamos cozinhar uns ovos, quando descobrimos que o gás tinha acabado. Era impossível, pois me lembro que em Townsville a bisnaga ainda estava pela metade, e deveria durar mais uns 7 dias cozinhando 2 vezes por dia. Fui examinar o fogão de perto, e vi que a capa de plástico estava toda arranhada, e o pino de segurança armado para baixo. Realmente era difícil acreditar que um mazurpial tenha tentado esquentar a comida dele em meu fogão, pois têm-se que empurrar o pino para à esquerda e depois para baixo, em "L". Em outras palavras, o Possum tentou de tudo para abrir o fogão, e na tentativa abriu o gás. Tudo isso por causa do cheiro de peito de frango que a Celia fez na noite passada. Bem resolvemos não deixar doravante mais nada de fora, e durante à noite, a mesa ficaria tombada de lado. Vá cagá no mato seu Possum, na minha mesa não!

Fomos dar uma volta na Horseshoe Bay (ou Baía da Ferradura para os íntimos), a praia que fica à menos de 100 metros do local em que estávamos. Essa praia é a mais popular da Maggie, como os locais chamam a ilha, pois é muito abrigada dos ventos e completamente sem ondas. Por isso devotos de esportes aquáticos, como jet ski, ski aquático, vela, kaiaks, e muitos outros, adoram fazer presepadas para se mostrar . Aproveitei para examinar a rampa de lançamento de barcos, para a estréia do nosso inflável, que se daria tão logo o vento acalmasse. Não teríamos problemas em obstruir a rampa enquanto inflássemos o barco, pois em ambas as laterais havia boa quantidade de areia, sem pedras que pudessem furar nossa intrépida embarcação.

 Andamos pela rua beira-mar, que foi inteiramente remodelada e ficou tão bonita que não dá vontade de sair de lá. Banheiros, bancos, mesas, e locais para se fazer um churrasco na chapa, todos públicos, foram pintados por estudantes de artes com cores vivas e temas marinhos como peixes e corais. Entramos no pequeno mercado na esquina, e o dito tinha absolutamente tudo que se encontra num supermercado de porte, claro que só um pouco de cada ítem, sem variedade de marcas, mais tinha até pão francês quente, coisa rara de se encontrar em muitas cidades da Austrália. Compramos pão queijo e leite sabor morango, e fomos para uma das mesas na praia para tomar o nosso café da manhã. A paisagem era bucólica, e o sol saindo de trás das montanhas dava um colorido avermelhado todo especial ao lugar. A tranquilidade era total e a gente comia sem dar uma palavra, só observando aquela extraordinária paisagem. Ponderamos em montar o barco mais tarde, mas ambos concordamos que estávamos mais para caminhar do que ir para o mar, pois ainda estava um pouco frio e ventando, e pelas horas que passamos sentados no carro nas estradas, precisávamos de alguma atividade física para manter a forma. Decidimos então fazer a trilha do Forte.

Voltamos ao Camping, e às 10 horas saímos a pé numa jornada de 12 quilômetros ida e volta, até as ruinas de uma fortificação da Segunda Guerra Mundial. Primeiro andamos no plano. pela única estrada da ilha até chegar no acesso, e depois entramos na trilha que tem cerca de 2 metros de largura com eucaliptos e outras árvores nos dois lados. Por causa dos Eucaliptos, cerca de 200 Koalas vivem soltas por lá, e é possível vê-las de perto, desde que se vá na hora certa, ou seja, depois das 3 da tarde, quando acordam, pois passam cerca de 20 horas por dia dormindo, e quando acordam tudo o que fazem é comer, transar, e voltar a dormir (não necessariamente nessa ordem). 

A folha do Eucalipto é tóxica, e faz com que as Koalas fiquem sonolentas. Até mesmo periquitos em época de seca comem a planta por causa da humidade. Eles ficam intoxicados e acabam dormindo no galho, caindo duros no chão. Ficam completamente anestesiados. Alguns quebram patas e asas, e outros morrem. É fácil saber se tem uma Koala por perto bastando observar o tronco das árvores. Se estiver todo arranhado, é porque elas estão lá em cima em algum galho, e as vezes fazem cocô na trilha, denunciando a presença na área. Mas dessa vez pela hora que fomos, não vimos nenhuma, mas há 7 anos atrás fomos na hora certa e vimos 4. 

A trilha do Forte é histórica porque na Segunda Guerra o Japão tentou invadir a Austrália e Townsville era estratégica para tal. Por isso contruíram no topo de um morro da ilha uma fortaleza, composta de uma torre de observação, outra de comunicações, canhões, e baterias anti-aéreas. Por causa da geologia da Maggie ser toda pedregosa, contruíram as coisas camufladas entre pedras gigantescas, de forma que se o ataque fosse por mar, jamais poderiam destruir os canhões, devido a proteção natural. A trilha é bastante íngreme, e algumas vezes tem se que parar para retomar o fôlego. Nessas paradas o silêncio é total, e pode-se escutar e ver várias espécies de pássaros por perto.

 Durante o trajeto, trilhas auxiliares saem da principal, e vão dar no paiol de pólvora, na enfermaria, na cantina etc, mas da maioria dessas instalações só sobrou uma base de concreto e mais nada. O posto de Observação fica no topo da colina, em cima de pedras enormes e para se chegar lá sobe-se em zig-zag por dentro da mata numa trilha ultra íngreme. De vez em quando abre uma brecha na mata, e dá para contemplar o panorama. É muito importante não sair da trilha, pois existem cobras venenosas, principalmente a Dead Addler, uma prima da cascavél que se esconde debaixo de folhas mortas no chão. Dentro da trilha não tem problemas. Lá de cima do posto de observação tem-se visão de quase 360 graus, e a casamata construida de concreto com paredes bem grossas. São dois andares, o de cima para vigia, e o de baixo para cama, comida e armamento. Todas as construções que lá se encontram foram erguidas entre 1942 e 1944.

Vista do posto de observação - Panorama de 5 fotos emendadas

Regressamos ao Caravan Park por volta das 3 da tarde. Nossos pés estavam pedindo pinico. O quilômetro final fizemos quase nos arrastando, e se tivesse passado um carro o dedão tinha subido, mas o único que passou estava cheio de gente. A Celia ficou com bolhas nos pés, e eu com os calcanhares que já não conseguiam encostar no chão. Realmente é muito importante usar o calçado adequado para andar longas distâncias, ou então o resultado é esse. Abri um cerveja estupidamente gelada que desceu que nem aquelas pedras gigantes rolando colina abaixo. Um Suíço naturalizado Australiano que administra a parte de Camping e mora num trailer ao nosso lado, veio perguntar como foi nosso passeio. Uma das coisas interessantes que ele contou, e que não sabíamos, diz respeito ao nome Koala, em Aborigene significa "sem água", ou seja, o animal chama-se Koala porque jamais bebe água, e retira o que precisa da umidade contida nas folhas do Eucalipto.

Quatro e meia da tarde no Caravan Park é hora de alimentar os periquitos, e isso acontece diariamente. Uma pessoa vem com uma bacia contendo pão com farinha e água e põe no chão. A periquitada voa direto em cima, fazendo uma verdadeira algazarra. A quantidade de periquitos gritando para defender a bóia do dia é enorme, e chega a doer os tímpanos pelos gritos agudos que dão. As pessoas metem as mãos na bacia, pegam um pouco de comida, e logo em seguida os bichos estão pousando em todas as partes do seu corpo. As unhas são afiadas, e tive minha careca devidamente cortada ao ponto de sangrar. Um deles ia escorregando por minha testa e travou as patas na minha sombrancelha, apertando forte. Sangrou também e ai coloquei o capuz. Turistas de todas as partes da ilha vem ver o espetáculo que realmente é um show de cores.

A noite caiu e estávamos morrendo de fome, mas cansados para cozinhar, e por isso fomos ao restaurante do Camping. Eles anunciavam o especial do dia que era uma Pizza por A$ 6 e pedimos duas de tanta fome que estávamos. Aquilo era tudo menos pizza, apesar de ser redonda, pois não tinha queijo em cima ou se tinha, deram pros periquitos antes. Só comemos molho de tomate e cogumelos, e só depois fomos descobrir que garçonete era turista da Alemanha e estava fazendo um bico por lá, trocando acomodação grátis por trabalho. Ela entendeu que queríamos pizza vegetariana sem queijo. Nós não pedimos pizza vegetariana falei pra ela, e ela virou as costas e foi embora, grossa que nem o canhão que tinha no forte antes. Voltamos para a Van às 8:30 da noite e fomos direto dormir. O dia tinha sido daqueles que pode-se chamar de perfeito se não fosse a pizza, mas tudo bem. Provavelmente amanhã iremos inaugurar o barco, pois o céu está completamente estrelado.

Pedras gigantes escondem o local dos canhões além de fazerem uma barreira natural de proteção. Os canhões rodavam num trilho circular e eram fixados numa base no centro do círculo e foram removidos ao término da guerra.

De dentro do posto de observação avista-se qualque coisa que se aproxime da baía. As paredes tem 50 cm de puro concreto.

Soldada rasa Celia prestando continência ao General Roger no posto de observação.

Vista do terraço no posto de comunicação

O posto de observação visto do posto de comunicação.

Magnetic Island, segundo dia

Amanheceu nublado e isso me deixou desolado, pois hoje seria o dia da estréia do bote inflável, mas do jeito que o tempo está feio e ainda por cima com esse vento, vamos ter que adiar. Tomamos um café da manhã reforçado com cereal, banana, tangerinas, e tudo mais que tínhamos direito. Os Possums não incomodaram mais e vamos manter a estratégia da mesa virada de lado. Pelo menos tinha uma coisa de bom, não estava chovendo. Hoje completou a primeira semana de viagem, e ligamos para casa para saber se os "já criados" (filhos grandes) estavam bem ou se precisavam de alguma coisa. Tudo sem problemas. Fomos no Internet Café do Caravan Park para os emails, e aproveitamos para ver o mapa de satélite sobre o tempo. Era desanimador... Novamente uma nuvem gigante de mais de 3000 Km de comprimento por 500 Km de largura cobria tudo ao nosso redor. A nuvem ía desde Cooktown até Bundaberg. Com certeza não iríamos ver a cara do sol por muito tempo. 

O comentário no Camping era sobre o tempo. Nosso vizinho Suiço disse que mora lá há 8 anos e nunca viu tanto frio e tempo ruim quanto nesse inverno. Ele trouxe uma tabela de chuvas de cada mês nos últimos 5 anos, e nesse mês havia chovido o dobro do que qualquer outro. Muitas pessoas arrumaram as coisas para ir embora e o camping ficou com metade da ocupação. De qualquer forma, volta e meia o sol dava uma olhadinha por dentre as nuvens e resolvemos ir pescar na Picnic Bay. Sete anos atrás, pegamos um monte de peixes a ponto de quase encher um balde. Fomos bem devagar pela estrada apreciando a paisagem, e revendo as praias que estivemos antes. Todas sem exceção são muito bonitas mesmo num dia sem muita luz como esse.

Chegando na Picnic Bay, fomos preparar o material de pesca e comprar isca numa pequena loja de pesca. Perguntamos ao dono se  andavam pescando muitos peixes, e ele respondeu que não. Disse que a água do mar perto da praia fica mais doce, e os peixes se afastam da praia. Andamos toda a extensão do pier e haviam 5 pessoas pescando. Passei olhando dentro dos baldes dos intrépidos pescadores e não tinha nada digno além de uma cocoróca ou outra, que aqui chamam de Bream. Fomos para o lado esquerdo do pier, e em volta de um pilar tinha um cardume de Hering, que como sardinha, são deliciosos passados na farinha, e fritos com espinha e tudo. Troquei o anzól por uma garatéia para com movimentos bruscos de baixo para cima, eu tentar fisgá-los. Já tínhamos pego 2 Herings, quando me chega um garotão bem gordo, e joga uma tarrafa perto do lugar que pescávamos. Reclamei e ele pediu desculpas, mas os peixes sumiram. Comecei a ter ganas de empurrar o gordinho dentro d'agua, mas como poderíamos ser acusados de gordocídio magnético, resolvemos ir embora (apesar de que afundar ele não ía, porque sei que gordura bóia e era o que não faltava nele). 

Fomos andar um pouco pelo pequeno centro comercial da Picnic Bay. Cinco minutos depois a Celia pediu para voltar, porque as bolhas no pé estavam incomodando muito. Um um sujeito que encontramos e que opera um tour na ilha num jipe lumosine, disse que tinha visto duas Koalas bem na frente da escola ali perto. Fomos lá conferir. Se tinha caíram do galho, pois só vimos passarinhos. Picnic Bay é a última praia que a estrada chega na ilha, e de lá tem-se que voltar. Assim fizemos todo o caminho de volta bem devagar apreciando a paisagem. A ilha é constituida de uma sucessão de enseadas, sendo que a Nelly Bay que é a vila mais importante, tem um pequeno centro comercial, incluindo uma bomba de gasolina além de algumas ruas residenciais para dentro. A maioria dos habitantes trabalha em Townsville, pois são somente 20 minutos no ferry de passageiros.

Entrei no acesso para a Radical Bay (outra praia) e tinham dois caras se preparando para mergulhar nos corais além de um casal pescando. A Radical Bay fica dentro do parque marinho, e não se pode pescar lá. De qualquer forma não estavamos afim de dar uma de polícia, e deixamos o casal em paz (a maioria dos Australianos iría com certeza reclamar com eles). Fomos caminhar descalços na praia, assim as bolhas da Celia não gritariam mais. Haviam muitos galhos secos na areia, mas vi uma coisa que me interessou muito mais. Haviam centenas de "pedra pomes", aquelas pedras que bóiam na água, e não acreditei em encontrá-las lá. A história é a seguinte: Há um ano atrás, um vulcão submarino entrou em erupção perto das Ilhas Fiji, e do nada surgiu uma ilha no meio do mar. Uns Australianos que passavam por perto em um veleiro presenciaram todo o ocorrido. Eles fotografaram tudo, inclusive o mar ficando sólido de tanta Pedra Pomes boiando, e que se extendiam até onde a vista pudesse alcançar. Diante de mim nas areias da praia de Radical Bay, estava um bom lote dessas pedras. Elas levaram mais de um ano boiando no oceano até chegar na Austrália, e o cheiro forte de enxofre ainda estava presente. Coletamos as melhores como souvenir, pois representam a formação da ilha mais jovem do planeta. Pelo certo não poderíamos pegá-las já que estávamos num parque nacional, mas achei que não ia ter problema, porque na verdade aquelas pedras são alieníginas à ilha, e poderia poluí-la com enxofre. Pelo menos essa seria a desculpa que iríamos dar ao Ranger caso ele aparecesse (se quiser saber mais sobre o episódio do veleiro, e ver fotos do mar coberto de pedra pomes clique aqui

Voltamos ao Camping e passamos o restante da tarde, fazendo algumas tarefas que estávamos devendo, como por exemplo, atualizar no computador esse website. Claro que se o Suiço gente boa não viesse a cada 10 minutos puxar papo, mandando minha concentração para o beleléu. Havia também uns periquitos que resolveram pousar na tela do computador. As garras afiadas podem fazer um bom estrago na tela, e delicadamente com um tapa, insinuei que ele fosse procurar a turma dele. Decididamente o trabalho não foi produtivo. Para o jantar fizemos um "peixe tempura" que compramos no supermercado acompanhado por couve flor, brócoli, cenoura e batatas. Mais uma vez estava à nivel de restaurante. Vimos um DVD e fomos dormir.

Panorama de 2 fotos emendadas - Radical Bay Jipe Lumosine

Magnetic Island, terceiro dia

Se você não tem interesse em saber sobre um tópico bastante polêmico na Austrália, que muito Australiano não gosta nem de tocar no assunto, então é melhor pular essa página, pois não tem nada de viagens e sim versa sobre uma conversa muito interessante que rolou no Caravan Park. No oitavo dia choveu o dia inteiro e praticamente não saímos do local e nem tiramos fotos. Passamos a tarde toda conversando com o vizinho Suíço sob o nosso toldão, e o assunto variou para a Ilha vizinha chamada Palm Island, uma reserva Aborígene. O conteúdo da conversa é bastante polêmico, quase um tabu, e não sabemos o quanto de verdade tem. De qualquer forma vamos reproduzir mais ou menos o que foi conversado.O assunto começou com uma observação de nossa parte de que não havíamos até o momento visto muitos Aborígenes nas cidade em que passamos. Na viagem anterior vimos muitos, mas nessa viagem, até agora só dois.

- Onde estão eles? Perguntei.
"Estão morrendo", respondeu o Suiço
- Mas morrendo de quê?
"De embreaguês e depressão!"
- Mas porquê? Se o Governo Australiano destina milhões de dólares anualmente para fazer com que saiam desse ciclo. Ele me falou uma coisa que jamais imaginei, e que me abalou seriamente, pois consegui entender o problema que simplesmente na minha concepção antiga não fazia sentido, mas agora faz, e o pior de tudo, não vejo solução.
- O Suíço me perguntou se eu sabia como os Aborígenes eram antes dos Colonizadores chegarem, e minha resposta fez com que ele abanasse a cabeça negativamente.
"Ele contou que para qualquer pessoa entender o problema Aborígene, primeiro tem que entender que nenhum ser humano na face terra jamais enfrentou condições tão difíceis e sobreviveu. Nenhum povo por mais de 40.000 anos conseguir viver exatamente com os mesmos conceitos e crenças. Eles conseguiram isso por dois motivos: O fato de serem nômades, e por causa das crenças, pois apesar de jamais terem escrita, conseguiram passar toda a filosofia de vida e ensinamentos de geração à geração através de desenhos na pedras e estórias contadas aos mais novos." 
- Mas e daí? Perguntei, o que isso tem isso à ver com o fato de estarem morrendo?
"Porque na cultura deles, simplesmente qualquer outra maneira de se viver não interessa. O que interessa, é a liberdade que eles tinham e agora perderam, e por isso estão deprimidos"
- Como assim, perguntei?
" É que eles eram nômades e extremamente espiritualistas. Por exemplo já aconteceu de se dar uma casa nova para um Aborígene, e a primeira coisa que ele vai fez foi retirar todas a janelas e portas, jogar o fogão no mato e fazer uma fogueira no meio da sala com a madeira da cama, para dormir no chão. É como certos pássaros quando presos em gaiola, morrem. Os Aborigenes jamais tiveram a concepção de casa, nem mesmo de palha, exatamente por serem nômades, e jamais fizeram cultivos ou coisa assim, pois eles usavam um lugar até não ter mais comida, e se moviam para uma área adiante. Eles não viviam em sociedades organizadas, mas em grupos familiares, e um grupo não tinha a mesma linguagem falada do outro, muito menos propriedade fixa, pois as terras eram de todos. Cada grupo perambulava por sua própria trilha e praticamente não haviam conflitos entre grupos. Eles se respeitavam e trocavam conhecimentos."
- Eram bem primitivos, eu falei!...
Não, Não,...na concepção Aborígene nós é que somos primitivos, pois precisamos de roupas para proteger nossa pele, temos que viver em casas para ter um local de referência e abrigo, e dirigimos carros para ir comprar comida, além de termos que trabalhar para pagar tudo isso. Para um Aborígene, a vida é como estamos agora, ou seja, debaixo de um toldo em meio à natureza conversando enquanto a chuva cai. Ser der fome, a gente mata um Possum faz uma fogueira e assa o bicho. Quando não tiver mais Possums, a gente se muda para a próxima praia, entendeu? São dois mundos diferentes, e eles não querem e não precisam aceitar o nosso. Mas nós estamos sempre tentando impor o nosso à eles achando que estamos fazendo o bem. A concepção de primitivo não existe para eles, tal qual a concepção de ontem ou amanhã, pois nem palavras para definir o ontem ou amanhã no vocabulário deles existem. São conceitos criados por outros povos, não por eles entende?!
- Balançei a cabeça afirmativamente, e o Suíço continuou...
Tudo o que você acha sobre os Aborígenes, foi formulado por coisas que você leu, viu ou escutou, o seu julgamento é feito no seu ponto de vista em relação a sociedade que você vive e não na deles. Se você fosse mandado no tempo para uma aldeia "primitiva" provavelmente você iria querer organizá-la de acordo com os parâmetros que você tem hoje, como por exemplo, eleger um chefe, distribuir tarefas, estabelecer diciplinas, etc..etc..No ponto de vista Aborígene isso não faz o menor sentido e não tem nenhuma ultilidade prática. Na verdade nem o uso da roda seria interessante para eles, pois eles não têm nada para carregar.
Eles só sabem viver dessa maneira faz mais de 40.000 anos, e se você tentar forcá-los no chicote, eles simplesmente não vão se intimidar, e vão se mudar de local. Esse é um dos motivos que eles desapareceram de muitas cidades. Não se sentem bem lá. No ponto de vista Aborígene, o refugio seguro é em qualquer lugar, seja deserto ou não, qualquer parte da Austrália, onde não exista outra cultura para forçá-los a nada, pois não têm o conceito de propriedade, seja de imóvel ou terras. Qualquer terra é sagrada e é de todos, pois é ela que sustenta a vida e não deve ter dono. Os Aborígenes não construiam casas, eles se abrigavam das intempéries em qualquer local natural que fosse adequado, seja uma caverna, debaixo de plantas, ou cavando um buraco no chão.
- E qual a solução? Perguntei...
Difícil solução. Nos dias de hoje para nós seria impossível aceitar esse sistema de vida, e do lado deles eles não querem o nosso. Quando o governo dá escolas, casas, remédio, dinheiro ou qualquer tipo de "ajuda" só faz aumentar a discrepância entre dois tipos de conceitos totalmente diferentes. Por isso é que vivem bêbados com o dinheiro que ganham do governo. O governo vai e proíbe a bebida só para eles, e com raiva, eles vão e espancam as mulheres e crianças. O governo gasta mais para protejer as mulheres e crianças, e eles usam o dinheiro para comprar mais bebida, por aí vai... Estão sempre com um olhar distante no mundo estranho que presenciam ao qual dificilmente vão se integrar.
- Entendi, repliquei...
Junte a isso, o fato da "Geração Roubada" (Lost Generation) que ocorreu entre 1930 e 1970, quando as autoridades da Austrália seguestravam crianças Aborígenes para afastá-las dos pais e da vida que levavam. A idéia era quebrar a resistencia de integração emocionalmente, sob o argumento de que as crianças iriam ter boa educação e seriam bem cuidadas com os brancos. Na época, o governo pensava que se criassem as crianças no conceito ocidental, quando elas se tornassem adultos, iriam estar completamente integrados à sociedade atual. Para isso, separaram irmãos e mandaram um para cada estado diferente para nunca mais serem vistas pelos pais e parentes. Para o governo o tiro saiu pela culatra. Isso só agravou a indignação, a tristeza, e a depressão deles. Para saber o tamanho do estrago, dizem que hoje não existe uma única família Aborígene sem alguém na família ou ancestral que não tenha sofrido a separação, e muitos não sabem para onde parentes foram mandados para tentar uma reunião. Entende a dimensão do problema?!
- Concordei com o Suíço em certas coisas, e outras não, Afinal, essa estória estava sendo me contada por um não Aborígene, e primitivamente falando, eu acabei ficando sem opinião.

A chuva ainda caia, e depois de checar e re-checar o mapa de satélite mais uma vez, chegamos a conclusão de continuar viagem no dia seguinte. O noticiário na televisão falava que um centro de alta pressão estava impedindo que as frentes frias subissem e por isso a umidade dos trópicos estava se condensando e causando o mau tempo. A previsão era de mais 3 ou 4 dias de chuvas.

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