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Viajando a Austrália:
Brisbane à Cairns
"Segunda Semana"

Magnetic Island até Innisfail  - 261 Km

Colocamos dois dias juntos porque iríamos sair da Magnetic Island no quarto dia, mas acabou que tivemos que trabalhar em vários contratos comerciais que precisavam de resposta urgente. Por isso, passamos o dia inteiro tanto no telefone como no computador. Em outras palavras, não rolou nada de interessante no quarto dia na Magnetic Island, só trabalho e chuva.

No quinto dia na Ilha, acordamos cedo e ainda chuvia fino, ligamos o rádio e escutamos que Brisbane estava com temperatura de 3 graus, coisa que nunca ouvimos falar. Pelo menos estávamos nos 16 graus, mas parecia muito menos. A previsão para a região era a mesma, chuvas para mais 2 dias. Quando deu uma pausa na chuva, tiramos o toldão procurando secá-lo o máximo possível, e depois de bem dobrado guardamos tudo debaixo da cama. Às 8 da manhã estávamos prontos para sair, mas a próxima balsa só sairía às 9:40. O Suiço veio perguntar se podíamos atravessá-lo dentro de nossa Van, pois assim ele não teria que pagar.  O único problema era que nosso bilhete falava claramente em somente duas pessoas no carro. Ele garantiu que não tinha problema, e eu disse que se me cobrassem extra ele iria ter que pagar. Combinamos de nos encontrar na barca 10 minutos antes do embarque.

Ficamos fazendo hora passeando na Maggie e tirando algumas fotos apesar do dia cinza. Quando chegamos no terminal, o Suíço já nos esperava e me disse que a balsa estava atrasada 20 minutos. Aproveitei e fui num supermercado ao lado comprar comida, pois a nossa estava acabando. Comprei uns bifes de carneiro que estavam bem magros por A$ 8, enquanto o preço normal é A$ 15 por quilo. Quando voltei ao carro, a Celia estava no telefone e me confirmou dois contratos fechados. Em outras palavras, o dia de ontem apesar da chuva foi produtivo. Chegou a hora de partir e entramos no carro. Veio a menina que pega os bilhetes e perguntou pela terceira pessoa no carro. Eu respondi que era um amigo da Ilha que ia nos mostrar Townsville, e ela simplesmente respondeu "No problem". Ao chegar nos despedimos daquele Suíço simpático que sabe usar o jeitinho brasileiro e fomos buscar algo para comer. Já eram quase meio dia, e a fome bateu. Paramos num McDonald e pedimos um "OZ Burger" que vem com carne e beterraba ao invés de queijo, e depois pegamos a estrada.

Sabíamos que não iríamos muito longe por causa da hora, e a princípio o destino seria Mission Beach, um outro lugar espetacular. A estrada estava muito boa e com o vento por trás chegamos rápido. Não chovia mas estava nublado. Paramos no Tourist Information e pegamos mais folhetos. Decidimos por causa do tempo continuar mais para o Norte, e parar em Mission Beach na volta. Quando já eram quase 5 da tarde eu estava cansado de dirigir, e resolvemos pernoitar num Caravan Park perto de Innisfail. Essa cidade foi bastante danificada ano passado pelo Furacão Larry, no dia 20 de Março de 2006, e os ventos chegaram a 240 km/h ou categoria 4 (uma a menos da máxima). Apesar de terem consertado quase tudo o lugar ainda mostra sinais da destruição, tais como árvores podadas, e telhados ainda em recuperação.

Essa região é a maior produtora de bananas da Austrália. São áreas enormes com plantações de se perder de vista, e que foram completamente destruídas pela força dos ventos. Para se ter uma idéia do estrago, o preço da banana chegou à A$ 15 o quilo poucos meses atrás. Agora desceu para A$ 6, enquanto o preço normal é A$3. A safra já era para ter sido colhida, mas as bananas ainda estavam verdes por causa do frio e das chuvas. Me chamou atenção o uso de sacos plásticos para proteger os cachos de pássaros e insetos, e assim dar uma aparência bonita à banana. O Caravan Park de beira de estrada me surpreendeu pela infra estrutura. Tinha piscina, banheiros muito limpos, Internet, e uma cozinha espetacular, pois quase tudo é novo. A dona nos mostrou fotos do Ciclone no Caravan Park, e eram de deitar cabelo de careca, impressionante. Muitas Caravans foram tombadas e arrastadas, ou pelo vento, ou pela enchente que se sucedeu ao Larry. Todas as árvores foram partidas ou voaram com raiz e tudo. O pequeno galpão onde ficava a cozinha decolou, e tiveram que construir um novo. A cidade inteira passou a ajudar uns aos outros e recontruir tudo das cinzas. Por incrível que pareça, não morreu ninguém. Conhecemos umas pessoas que moravam no Caravan Park, a maioria "fruit pickers" ou seja, trabalham nas colheitas da banana e cana de açúcar, e estavam aguardando a chuva passar para começar o trabalho. Fomos na Internet para ver a previsão do tempo, e parecia que Cairns e Port Douglas iriam ter tempo melhor. Essa seria a nossa opção de viagem para o dia seguinte. Como sempre, fomos dormir cedo.

Para ver um mapa e saber mais do Ciclone Larry, clique aqui.

Rock Wallabies, são primos do canguru só que bem menores, e habitam a Magnetic Island. Rock Wallabies vivem nas pedras e podem ser vistos facilmente no canto esquerdo de Nelly Bay, na Maggie. A espetacular cozinha do Caravan Park foi inteiramente reconstruída depois do Ciclone Larry.
Cabines como essa, voaram inteiras do Caravan Park. Praticamente não existem mais árvores. Estragos do Larry ainda podem ser vistos 1 ano depois nos telhados das construções de Innisfail. Ao poucos estão reconstruindo a cidade.

De Innisfail ao Daintree National Park - 290 Km

Às 7 da manhã pegamos a estrada de Innisfail para Cairns. Mais uma vez dia nublado sem chuvas. Estrada boa, mas bem mais movimentada do que o trecho anterior. Voltamos a pegar carros rebocando Caravans andando à 65 Km por hora na estrada. Dá vontade de ter um canhão.

A chegada à Cairns nos impressionou, porque nunca chegava, ou seja, a cidade cresceu tanto que  antes levava 10 minutos desde as primeiras casas na estrada até o centro, e levamos uns 20 minutos ou mais, ainda mais na hora do rush. Ficamos também impressionados com o número de carros nas ruas e coisas novas na cidade, indicando grande crescimento recente. Estávamos com pouca gasolina, e vimos um posto vendendo por A$ 1,24 o litro, a mais barata que encontramos. Depois paramos num enorme shopping center e fomos fazer compras num supermercado. Compramos muito mais comida que cabia em nosso freezer, mas os perecíveis entraram sem problemas. Aproveitei e parei numa liquor shop para comprar outra caixa de cerveja, que custou A$ 36, bem mais caro que na Gold Coast obviamente devido ao frete. Uma vez totalmente abastecidos, ainda passeamos um pouco pelo centro onde vimos uma enorme estátua do intrépido Cook bem magro, que parecia fazer uma saudação à Hitler. A estatua é medonha.

A estrada de Cairns à Port Douglas tem duas fases. A primeira é um pé no saco, porque a cada 300 metros tem um roundabout (rodador de trânsito sem sinal) e exatamente quando chega-se aos 80 Km/h, tem-se que reduzir para um novo rodador. São 12 no total. Essa parte tem muito trânsito e requer muita atenção. Passa-se o Aeroporto e a entrada para o Skyrail, e depois que deixamos a cidade, a estrada ficou bem melhor, indo literalmente pela beira mar entre montanhas e praias. A velocidade é lenta por causa de curvas bem fechadas, e se o motorista bobiar vai parar na areia ou dentro d'água. Tem vários mirantes pelo caminho, paisagens bonitas, e lindas praias desertas, mas todas com o mesmo aviso no acesso..."Crocodilos de água salgada habitam essas águas o ano todo". Outra placa avisava sobre perigos com águas -vivas, ou seja, tudo muito bem, tudo muito bonito, mas entrar no mar só se for à bordo de um submarino.

Chegamos em Port Douglas com o céu meio encoberto, e entramos na cidade para dar uma olhada. Aproveitamos e fizemos um lanche e compramos uma torta de crocodilo para o jantar. Resolvemos seguir mais adiante até o Cape Tribulation, nosso destino final. Acima do cabo, só em veículos 4 x 4, pois o asfalto literalmente acaba, apesar de haver uma outra estrada asfaltada até Cooktown que sai da cidade de Mossman. Essa estrada dá uma volta de mais de 250 km pelo interior, e não nos atraiu em ir visità-la. Após Cooktown não existe mais estrada, somente uma trilha cortando terras Aborígenes. Logo que saímos de Port Douglas para Mossman, a estrada ficou praticamente deserta. Quase não passavam mais carros. Depois de Mossman então é que não cruzamos praticamente com mais carro nenhum. Passamos um posto de gasolina que tinha uma placa enorme dizendo..." Não há mais gasolina adiante, esse é o último posto".  Tínhamos enchido o tanque em Cairns e pelo número de quilômetros no mapa, dava de folga para ir e voltar duas vezes, e por isso seguimos adiante.

A travessia do Daintree River tem que ser feita numa balsa. O rio é repleto de crocodilos de água salgada e existem placas em todos os lugares para te lembrar disso. Os locais dizem que os bichos são tão protetores de território, que atacam até barcos, algumas vezes danificando hélices com a potente mordida. Perguntei para a Celia se ela queria experimentar o bote inflável alí, e ela resmungou que eu estava querendo me ver livre dela. A travessia custou A$ 16 ida e volta e leva 5 minutos, sendo que uma placa enorme avisa:" É proibido sair do veículo por razões crocodilesticas". Perto da balsa existem várias companhias oferecendo tours para ver aqueles monstrengos anabolizados, mas todas tinham preços de entortar cartão de crédito.

Quando chega-se do outro lado os crocodilos choram, pois ninguém caiu do barco. Após o desembarque a estrada afina de tal jeito, que dois ônibus em sentidos opostos vão ter que cruzar bem devagar senão os espelhos vão pro espaço. A vegetação abraça a estrada até mesmo por cima, ficando escuro em pleno dia. A impressão é que estamos atravessando um túnel de folhagens. Sem dúvida foi uma das estradas mais bonitas que já vimos, se não fosse o fato de ser estreita e requerer muita atenção. Uma placa avisava que estávamos entrando no Daintree National Park, a floresta mais antiga e diversa do mundo. Essa floresta tem mais variedades de plantas por metro quadrado que em qualquer outro lugar no planeta, incluindo plantas raras e únicas. Outra placa pedia moderação na velocidade por causa de Cassoaries cruzando a pista. Cassoaries, são aves que não voam,  parecidas com uma avestruz, sendo que um macho adulto pode chegar a atingir dois metros de altura. Foram quase extintas, mas são protegidas pelo governo atualmente. Seguimos devagar pela difícil estrada de curvas bem fechadas, e placas indicavam; Curva de 30 km/h à direita, curva de 20 km/h à esquerda. Brinquei com a Celia dizendo que se continuasse nesse rítimo, na próxima curva a gente iriía ter que descer do carro e fazê-la à pé. Paramos num mirante com uma linda vista do delta do rio Daintree, e haviam muitas borboletas no local, principalmente as azuis chamadas de Ulysses.

Não sabíamos onde íamos ficar a noite e não tínhamos pesquisado direito sobre acomodações ou Caravan Parks na área, mas sabíamos que existia um local para camping no Cape Tribulation, só que sem energia elétrica nos "sites". Foi quando passamos por um lugar muito bonito, e que tinha uma placa dizendo "powered sites for caravans". Paramos e fomos indagar. O preço era de A$ 24 por noite e resolvemos ficar. A mulher depois que soube que queríamos o "site" por somente uma noite, fez cara de peido, mas não falou mais nada. Fomos para o local que ficava à 300 metros da recepção por uma estradinha de concreto e com mata fechada por cima. Uma clareira na mata denunciava o local. Existiam 4 sites com plataformas de concreto, uma área para barracas, e duas cabines de madeira. Só tinha um site vago que era exatamente o nosso. Logo descobrimos porquê a mulher da recepção não falou mais nada. O fato é que fora da pequena plataforma de concreto, tinha um belo gramado, só que em baixo era pura lama. Em outras palavras, você pisava na grama e afundava na lama. Outro problema, foi que nosso cabo de eletricidade era curto para chegar no poste indicado, e por isso tive que passá-lo por baixo do carro do vizinho. Para tal tive que ficar na clássica posição que Napoleão perdeu a guerra, e o resultado foi que atochei meus cotovelos e joelhos na lama também.

Celia foi dar uma volta enquanto eu fui pro banho, e depois improvisei uma tábua de madeira para fazer de ponte até a plataforma. pois assim não correríamos o risco de pisar na lama. Botei mesa e cadeiras na pequena plataforma, e mesmo ameaçando chuva, eu não iria entrar na lama novamente para montar o toldo. Abri uma cerveja, e sentei na cadeira contemplando a vista ao nosso redor. Fora a lama, o resto era muito lindo, com árvores espetaculares e plantas das mais estranhas possíveis que nunca havia visto, nem no Amazonas.  A Celia voltou do passeio e disse ter visto uns Cangurus numa trilha. Ela chegou a entrar na trilha, mas logo teve que parar porque estava muito escuro lá dentro e a trilha tinha virado um córrego. Estavamos sentados conversando, quando tive a supresa do dia. Cochichei baixinho:- Tem uma Cassoary com dois filhotes bem atrás de você. Fiquei sabendo por minha culta esposa, que só Cassoary macho cuida dos filhotes. Falei para ela não fazer movimentos bruscos, pois esse bicho ataca pulando com as patas no pescoço da vítima. Os pés deles são enormes, muito maior que uma mão humana, com 3 dedos bem grossos, e unhas longas e afiadas que nem gilete. Um filhote veio bem perto e dava pra ver que o pai estava me fitando nos olhos. Fotografei com movimentos em camera lenta para não assustá-los, e depois eles foram embora continuando a ciscar o solo. Soube depois, que a última morte registrada por Cassoary na Austrália foi em 1926, quando um rapaz de 18 anos ameaçou um Cassoary com filhotes, e o bicho pulou na jugular dele. Ele sangrou até a morte. É extremamente perigoso alimentar Cassoaries, e o pão por algum motivo pode matar elas.

A noite caiu, e todo o pessoal que estava lá, menos um casal, foi para a cozinha comunitária. Lá tinha um fogão à lenha e uma boca industrial de gás para uso dos campistas. A mesa era de madeira, bem longa e com bancos fixos nos dois lados. Cada qual fez sua bóia, e depois das apresentações ficamos batendo papo regado à cerveja e vinho. As conversas se estenderam até quase meia noite, cada qual contando suas experiências na Austrália. Um casal da nossa idade morava na estrada, e viajava o tempo todo para onde tivesse trabalho em colheitas ou fazendas. O outro casal era da Alemanha e estava no programa de trabalhar e viajar (Working Holliday), também nas colheitas. O último casal era da Inglaterra, também no mesmo programa. Ele tirou carteira para dirigir ônibus e ela trator, e ambos tinham tantas ofertas de trabalho que não conseguiam sair de Port Douglas. Foi uma noite de ótimas conversas e no final resolvemos todos os problemas do mundo. A propósito, nosso jantar foi torta de carne de crocodilo que compramos em Port Douglas, e esquentamos com bandeja de alumínio e tudo em cima do fogão de lenha. A massa estava uma delícia, mas a carne de crocodilo não tinha gosto de nada. Papelão talvez.

Placa na entrada do Parque. Cassoary - macho devido a crista

Entre Novembro e Maio a área é infestada de Box Jellyfish, a água viva mortal. Garrafas de Vinagre estão disponíveis nas praias para uso em queimaduras de água viva. Se for uma Box Jellyfish de pouco adianta.

Crocodilos de água salgada chegam à 7 metros e chegam a pesar 1 Ton. O sujeito que está pescando está recuado uns 5 metros do mar, mas mesmo assim corre risco de ser atacado.

Cape Tribulation até Port Douglas - 138 km

Acordamos às 8 da manhã com fome, e comemos uma tijela de leite com cereais e banana. Nos despedimos de nossos vizinhos e partimos para o Cabo Tribulation. O cabo tem esse nome porque Tribulation é sinônimo de "problemas" e foi lá que eles começaram para o intrépido. A história é a seguinte: O Endeavour, barco do Cook, achou que estava molhado demais e resolveu sair do mar indo estacionar em cima de um recife de coral. O barco começou a afundar, e ía afundar se o imediato não vestisse o casco com uma vela, como se fosse um fraldão. Se o barco tivesse naufragado, talvez na Austrália hoje se falasse Francês e meu nome seria Rôgê, ao invés de Roger, pois os franceses já estavam com um pé na Austrália. Para chegar em terra firme foi uma dificuldade tremenda, e por ter chegado e salvado a tripulação, o Cook foi promovido de tenente para capitão. Eles passaram meses para consertar o navio na localidade que hoje chama-se...Cooktown, em homenagem claro, ao intrépido.

A estrada continua linda e estreita, mas dessa vez vai tão perto do mar que dá para ver os corais. Tem uma pequena serra a ser transposta, e todo o trajeto é feito praticamente num túnel de florestas em ambos os lados da estrada. Você sabe que chegou ao Cape Tribulation por causa de uma meia dúzia de construções, e pelo motivo de que a estrada acaba sem aviso prévio. Dalí a estrada vira uma trilha de 120 Km até Cooktown e só dá para ir de carro 4x4, e mesmo assim, só em dia seco. Cape Tribulation era o nosso destino final indo para o Norte, e tínhamos chegado. O dia continuava nublado e começou uma chuva fina de dar ódio em anjo.  A primeira coisa que fiz foi olhar para o odômetro e anotar quantos quilômetros havíamos rodado desde que saímos. Total: 2.251Km.

O Cabo fica à uns 300 metros do lugar onde se estaciona, e tem uma trilha para um mirante lá em cima. Chegamos no início da trilha e haviam duas placas de aviso. A primeira: "Cuidado com um Cassoary macho  que anda intimidando as pessoas. Pode ser agressivo".  A segunda placa dizia...: "A trilha para o mirante está interditada para reformas - volte em breve". Como volte em breve?!  Esses caras acham que meu carro tem turbina e voa, como assim, voltar em breve?! Que sacanagem!  Agora só falta encontrar o macho Cassoary, o tal agressivo!. Por sorte encontramos foi uma floresta de cipós onde a minha mulher resolveu se pendurar (não me surpreendou, pois ela adora banana). Depois das macaquices, pegamos a trilha para a praia e deu pra ver que a praia era linda se não fosse aquele tempo miserável. Esse lugar é único no mundo, porque a montanha e a floresta se beijam na praia, e logo na frente tem muitos corais. Teoricamente, não deveriam existir corais em lugares com baixa salinidade devido a água doce dos inúmeros córregos, mas esse lugar é exceção no mundo. De qualquer forma, para não fazer do local um paraíso, Deus primeiramente mandou uma chuva para nos sacanear, e botou um monte de peçonhentos e plantas carnívoras na floresta. Ainda não contente, colocou polvos e conchas mortais nos corais, águas vivas que matam em 5 minutos, isso sem falar dos crocodilos gigantes tanto nos córregos quanto no mar. Para não ser chamado de muito severo, Deus colocou também algumas espécies não tão perigosas, como tubarões, que comparados ao resto parecem freiras de convento. Com tudo isso o lugar é mágico.

Sem mais nada para fazer, fomos na "cidade" pois onde estamos, mais de duas casas é considerado uma vila, e mais de 5 uma cidade. Na city tem uma construção de palha que é o centro de informações turísticas. Ao lado, uma farmácia dobra como loja de souvenir e cujo balconista é médico, ou seja, você compra uma camiseta escrita "Eu sobrevivi ao Cape Tribulation" e ganha uma aspirina como brinde. Mais adiante um bar, restaurante, e pub, dobra como banco, pois tem uma máquina de sacar dinheiro (ATM). Mais para dentro na direção da praia, tem uma área para camping, e outra com cabines. Do outro lado da rua tem um hotel no meio da mata. Pronto, a cidade foi descrita. População: 10 x 1, ou seja, 10 bichos mortais por habitante. A city é o ponto de encontro, e de lá saem diversos tours interessantes tais como, "Ver se os crocodilos só mordem quando fecham a boca", "Pesca de Oceano sem virar isca", "Mergulhos nos Corais com ou sem tubarões", "Ver se Cassoary vai a manicure", " Identificar plantas carnívoras pelo tato", "Passeios noturnos para ver se a cobra mais venenosa do mundo come o sapo mais venenoso do mundo", ou o melhor tour de todos, " Vôo panorâmico de ultra-leve", onde o aterrorizado turista sentirá um alívio enorme de não estar mais pisando no chão.

Voltamos devagar parando em alguns locais para apreciar a beleza, e chegamos à conclusão que o local é lindo demais! Mas acho que deveria ser visitado entre Setembro e Outubro, quando a temperatura é mais quente e não costuma chover. Nessa época do ano ainda não tem água viva e pode-se nadar no mar quase sem se preocupar, a não ser por uma possível disputa entre um tubarão e um crocodilo, por sua pessoa. Chegamos num local onde tem uma caminhada por dentro da mata. Uma espécie de ponte de cordas que acaba num mirante e é muito popular. Demoramos para encontrar vaga, devido aos ônibus de turismo estacionados no local, mas logo depois conseguimos uma. Entramos por uma loja de souvenir e veio a surpresa, custava A$ 50 por cabeça para a tal caminhada. Nos recusamos à pagar esse preço peçonhento e continuamos de volta para a balsa. Chegamos em Port Douglas no meio da tarde e ficamos num Caravan Park que já conhecíamos da outra viagem. A localizaçãcao era bem legal, cerca de 10 minutos a pé do centro da cidade ou da praia. Arrumamos a Van e batemos um pouco de papo com um vizinho, e em seguida fomos preparar o jantar. Fizemos uma galinha com molho satay (de amendoim), batatas e arroz, e ligamos a TV para as notícias. Segundo o noticiário, houveram muitas mortes no mundo, mas o curioso é que em Cape Tribulation não morreu ninguém. O reporter do tempo nos fez sorrir de orelha à orelha. A previsão excluia chuvas apesar do tempo nublado, mas falava que depois de amanhã seria Sol. A temperatura estava nos 27 graus, e pela primeira vez usamos o inútil ventilador para refrescar um pouco o interior do nosso pão de forma branco.

Plantas carnívoras - Não alimente elas com seu dedo. Elas podem gostar e comer os outros todos.

Acabou a estrada chegamos!!! Sair dali é outra estória.

Camping no Cape Tribulation

Se o carro quebrar esse é o unico mecânico e reboque do local. Nunca vire inimigo desse sujeito. Pântanos entre montanha e praia. Olha a cobra venenosa aííí gente..Squidum, squidum, bis São e salvos no Caravan Park de Port Douglas. 

Port Douglas 

Decididamente o tempo melhorou e pela primeira vez em muitos dias acordamos com um nascer do Sol espetacular. Ainda não estava totalmente limpo, e volta e meia o céu fechava novamente, mas pelo menos nem sombra de chuvas. Fizemos panquecas com manteiga, geléia de morango e queijo, e saímos para passear a pé.

A praia estava cheia de gente se exercitando, gente caminhando, outros correndo, um grupo de Yoga, e alguns casais de turistas passeando de mãos dadas. Vimos um senhor colocando cadeiras para alugar e fomos tirar nossas dúvidas sobre nadar naquela praia. Ele disse que nessa época do ano não tem problema, mas falou que uma semana antes viu um crocodilo nadando perto da praia. Perguntamos se haviam ataques registrados, e ele disse que não. Explicou que os "crocs" passam por ali somente na época de acasalamento, quando vão procurar uma fêmea em outro rio que deságua no mar. Ele apontou para umas bóias perto da areia, e disse que poderíamos nadar sem problemas, ali tinha rede de proteção. Mas ainda estava um pouco frio para um mergulho.

Resolvemos subir o morro no final da praia, que segundo nosso folheto, tinha um mirante em cima. O dito era bastante inclinado e a trilha ía em longos zig-zags. Chegamos no topo, e estava preparando a camera para "aquela foto", quando o tempo começou a nublar. Foi como uma luz que vai se apagando, se apagando, e apagou. Fiquei "P" da vida. Só tinha uma faixa azul no horizonte e esperamos mais um pouco para ver se o tempo abriria de novo. Nada. O lindo visual da praia saiu uma porcaria na foto (foto). Vimos os dois Catamarãns para 400 pessoas cada, partirem para a Grande Barreira de Corais e perguntei para a Celia..." - Será que as pessoas veem graça em visitar a Barreira de corais com mais outras  800 pessoas? Nós fomos na Barreira de corais com 15, e achamos uma multidão, quanto mais com esse povo todo. Ficamos imaginando esses 800 mergulhadores de primeira viagem entrando em pânico porque viu um polvo dando-lhe uma "banana" com os oito tentáculos, e eles se assustando e pisando nos corais. E isso todos os dias, 364 dias por ano. O que salva a Barreira é que determinaram uma única área para visitas. Em outras palavras, o barco vai ao mesmo local todos os dias, e 800 turistas ainda por cima acham uma maravilha ver corais quebrados. Imagina se eles vissem o Fitzroy Reef.

Descemos do morro e fomos passear no  centro de Port Douglas. A primeira coisa que me chamou atenção foi a quantidade de prédios de 3 ou 4 andares que estão sendo construindos. De onde vem essa grana, perguntei à um sujeito de capacete que trabalhava na obra. Ele disse que são investidores Japoneses, comprando para alugar por temporada para turistas. Existe uma linha direta de Tokyo à Cairns, e os Japoneses vêm em massa nas férias. Continuamos nosso passeio, e paramos num Internet Café para colocar a correspondência em dia. O local dobra como locadora de DVD, sorveteria, e tinha um enorme baú cheio de livros usados, no qual você troca seu livro caquético de tanto lido, por um outro mais caquétito ainda, bastando para isso depositar A$ 1. Tinha livros em quase todos os idiomas do mundo. Depois fomos comprar comida num supermercado, incluindo repelente para mosquito. Pela primeira vez em toda viagem levei duas dentadas covardes pelas costas.

Continuamos o passeio olhando os Cafés que estavam cheios de turistas, e fiquei intrigado com a quantidade de gente tomando cerveja em barzinhos às 10 horas da manhã. Metade do estabelecimento tomava café da manhã e a outra metade " Booze" que na gíria australiana quer dizer birita. Fomos ao parque central da cidade onde há relíquias da guerra, e ficamos por um bom tempo vendo bombas, canhões, minas, e outras armas antigas. A Celia comprou uma sandália (não eram as legítimas) e depois sentamos para tomar sorvete. A temperatura estava muito agradável e ficamos por um tempão olhando as pessoas passarem na rua. Gente de todos os tipos, feias, medonhas, bonitas, gostosas, não tanto, cabeludas, carécas, tatuadas, enfim, um verdadeiro zoológico dos trópicos. Haviam também muitos gays, pois Port Douglas tem acomodações específicas e tours para esse segmento de mercado. Estávamos andando desde às 8 da manhã. Meus calcanhares voltaram a doer, e minhas costas também não estavam bem. No dia que ficamos conversando no Caravan Park, sentei torto no banco de madeira por um tempão e dei um jeito no cox. Chamou atenção um hotel em estilo Vitoriano, com  bandeiras de vários países do mundo, incluindo a do Brasil e a da Argentina, lado a lado.

Voltamos para o Caravan Park, passando por ruazinhas interessantes, com mais cafés, bares, lojas de souvenirs, de tours, e comerciais. Sempre tinha movimento na rua. Quando chegamos no Caravan Park fui direto para a cama, e peguei um livro para ler. O livro era sobre dois Ingleses viajando a Austrália, e a parte referente à Port Douglas era hilária. Um deles sempre sacaneava o outro, até mesmo na hora de comer. Quando um deles pediu um peixe num restaurante, o outro falou que ele teria sorte se escapasse da "Ciguatela" (toxina letal causada por peixes que comem corais). O cara suspendeu o prato e pediu bife, e o outro disse que a carne alí era muito boa, pois só serviam carne de canguru recém-atropelado na estrada. No final o sujeito acaba comendo macarrão puro. Eles descobrindo crocodilos, cobras venenosas, águas vivas, vomitando no barco, e muito preocupados com um surto de Dengue local. Era de se mijar de rir. Levantei melhor do jeito na coluna, e passamos o resto da tarde conversando com outros viajantes no Caravans Park.

O assunto predileto era o tempo, e isso estava me irritando duplamente. Primeiro pela previsão ser de Sol e o dia estava cinza, e segundo que por onde se ía, tanto na cidade quanto no Caravan Park, o assunto era o tempo. Gente falando que há mais de 10 anos não vê um tempo tão frio e chuvoso, gente se queixando da artrite, da orelha fria durante a noite, e por aí vai. Tinha um vizinho engraçado, que levava o motor de popa do barco pendurado atrás do carro (foto), e todo mundo que passava elogiava o novo método de propulsão do carro dele. Quando ele saía de carro, ele ligava o motor em ponto morto só para as pessoas pensarem que era o motor de popa que empurrava o carro. Uma Kookaburra (ave australiana) pousou num poste bem perto de nós e ficou lá por um bom tempo. Consegui fotografá-la bem de perto.

Combinamos no dia seguinte de voltar para a estrada, e ir para o interior rumo ao Tubos de Lava de Undara. De jantar comemos um "T-Bone Steak" com salada Grega e suco de laranja. Depois do jantar fui direto para a cama, pois a dor nas costas tinha voltado e já estava sem posição para ficar sentado na cadeira. A Celia ficou batendo papo com os vizinhos até tarde.

Kookaburra inteligente

Ulysses- as borboletas azuis 

Novos empreendimentos

Parques de Port Douglas De cima do morro Entrada da cidade

Port Douglas a  Innot Hot Springs - 388 Km

Levantamos cedo e por volta das 8:00 da manhã já estávamos na estrada descendo para Cairns. O dia estava bem melhor com o céu quase completamente azul. Na vinda, passamos por essa estrada num dia bem nublado e quase não tiramos fotos, mas agora era diferente. Realmente é impressionante o efeito que o Sol tem sobre as pessoas. Pegar um dia de Sol depois de muitos dias nublados dá a sensação de se estar nascendo de novo, e tudo fica lindo e colorido.

A estrada estava tranquila e como falamos antes, esse trecho vai o tempo todo beirando o mar com lindas praias e paisagens, mas todas infestadas por alegres crocodilos. Paramos um monte de vezes para fotos, e entramos numa fazenda de crocodilos que oferece tours para visitantes. Eu não sei porque, mas achamos que o pessoal aqui em cima cobra bem carinho pelos passeios. A$ 75 por cabeça, para um passeio de duas horas. O problema é que na maior parte do tempo, fica-se recebendo explicações sobre como criar crocodilo em cativeiro, o que decididamente jamais vou fazer, muito menos na minha Van. O que estávamos interessados, era no tour de barco no rio, que só ocorre na última hora da visita. Perguntamos se dava para fazer só o tour do rio por um preço mais razoável, e a resposta foi não.

Voltamos para a estrada, e por uma recomendação, entramos na pequena vila de praia chamada Palm Cove. Essa vila fica à uns 30 Km ao Norte de Cairns e virou um balneário turístico e de fim de semana. O local tem muitos hotéis de luxo, cafés e restaurantes com mesas nas calçadas, todos com sombreiros coloridos. Os cafés estavam lotados com pessoas lendo jornal, outras conversando, além de crianças pentelhando. Sentamos numa mesa e pedimos um único café para nós dois, pois pagar A$ 5 por uma xícara de café aguado com creme, decididamente não deixa minha carteira feliz. Ônibus de turismo lotados de Japoneses, todos com cartões de memória de zilhões de gigabites chegavam a cada instante.  A Esplanade, rua que vai beirando o mar é bem interessante, com coqueiros e um calçamento feito com paralelepípedos cinza mesclados com uns cor tijolo, compondo desenhos artísticos. Pensamos em passar uma noite lá, e perguntamos por um Caravan Park. O dito ficava na beira da praia, e quando chegamos tinha uma bela placa dizendo:"No Vacancy". Ainda insistimos só para confirmar se estava mesmo lotado, mas sem opção, tivemos que pegar a estrada. Já tinham começado as férias escolares. 

Chegamos em Cairns e fomos para à beira mar, pois me falaram que haviam feito um parque novo, e que tinha ficado muito bonito, inclusive com um belo piscinão público. A cidade de Cairns é muito agradável durante o inverno quando não faz muito calor, mas no verão até crocodilo toma sorvete para refrescar. O maior problema de Cairns é que na frente da cidade não tem praia, mas sim um lodo, e esse piscinão novo com certeza vai quebrar um galho. De qualquer forma bem perto tem praias boas e bonitas, como as de Palm Cove. Passeamos um pouco pelas ruas que estavam um pouco vazias, talvez por ser Domingo e vimos muitos turistas Japoneses e de muitas outras nacionalidades. Ficamos conversando sobre como a Gold Coast perdeu esses turistas, pois há uns 5 anos atrás eles íam em massa para lá. A cidade de Cairns realmente está muito bonita e já conhecemos bem, inclusive fizemos duas vezes o incrível passeio no teleférico (skyrail), que vai bem por cima da floresta quase raspando nas árvores, até chegar na cidade de Kuranda. De Kuranda saem passeios de trem por vales com cachoeiras espetaculares e é muito bonito. Em Cairns, recomendamos esse passeio e uma ida à Barreira de Corais, mas não para a Green Island que é mais perto da costa e custa menos, mas não chamo aquilo de Barreira de Coral nem que os peixes implorem. No mesmo local que paramos na vinda, abastecemos o carro e compramos comida para seguirmos para Undara, onde tem os maiores Tubos de Lava no mundo. A viagem teria que ser feita em dois dias, e assim demos adeus à Cairns.

Mesmo tendo feito muitas viagens na Austrália, cometemos um erro básico. Não perguntamos sobre as condições da estrada que pegamos, a  Gilles Highway para a cidade de Atherton. A estrada vai da costa ao interior, cortando caminho por dentre as montanhas, coisa que já sabíamos. O que não sabiamos, era a forma com que ela cortava as montanhas. Nunca que eu me lembre, andei numa estrada com tantas curvas tão fechadas e tão íngremes. A impressão que eu tinha era que a qualquer momento íamos chegar no céu. A estrada em si é boa, e tem paisagens de tirar o fôlego, mas meu carro sofreu coitado, os cavalos que ele tem dentro do motor deviam estar todos com as patas doloridas. O bicho tinha dificuldades de subir em segunda, e as vezes fazia longos trechos em primeira. Paramos alguas vezes para descansar e ver a paisagem, pois foram duas horas seguidas de esquerda direita, primeira e segunda, numa velocidade média inferior à tartaruga alpina. E não acabava nuuuunca ! Só depois descobrimos que estávamos subindo para um planalto, e ao invés de subir direto, estávamos contornando o dito até chegar do outro lado. Sempre subindo. Agora sabemos o porque do nome planalto...você sobe que nem um infeliz só pra chegar num plano bem alto.

Passamos cidades menores como Malanda e Yungaburra, todas bonitinhas, mas sem nada que chamasse atenção. Vimos muitas fazendas em ambos os lados da estrada, incluindo fazendas de ovelhas, de criação de peixes, e muitas mais. Já fazia frio pela altitude de mais de 1300 metros, e entramos numa zona de nevoeiro perto da cidade de Ravenshoe. Ventava muito, e o carro mesmo com velocidade reduzida implorava para que eu segurasse a direção com força para mantê-lo na pista. Do meio do nevoeiro surgiram umas sombras estranhas, que a princípio não dava para reconhecer. Com o tempo entendemos que estávamos uma fazenda de energia, movida por moinhos de vento. Paramos num mirante apropriado para uma visão privilegiada do nevoeiro, digo dos moinhos. O vento era o único barulho que escutávamos, ritimado por um ou outro mugido de vaca. Ficamos em silêncio observando a paisagem bucólica por exatamente 1 minuto. Os moinhos e as vacas de repente começaram a tremer na nossa frente, denunciando que estavamos congelando de frio. Buscamos abrigo dentro do carro, cujo motor ainda quente esquentou até as entranhas de nossas almas. Essa área também foi atingida pelo ciclone de Innisfail, e foram registrados ventos de 295 Km/h. Fiquei imaginando qual a rotação que esses moinhos chegaram durante o ciclone, ou se existe algum mecanismo para travá-los numa intempérie. Será que eles poderiam ter decolado e pousado no Brasil?

Agora a estrada estava muito boa e anão tinha mais aquele vendaval. A cada quilômetro a paisagem ía mudando, pois afinal estávamos deixando a faixa verde do litoral e entrando no "Outback" Australiano. A terra fica mais vermelha, e cupimzeiros enormes podem ser vistos em ambos os lados da estrada. Mas com certeza não iria dar para chegar a Undara nesse dia, devido a baixa quilometragem que conseguimos até o momento. A Celia falou que no mapa havia um Caravan Park num local chamado Innot Hot Springs, famoso por causa das fontes minerais de águas quentes. O ponto que vimos no mapa estava marcado como uma cidade, mas ao chegar constatamos tratar-se somente de um único estabelecimento, que era o Caravan Park. O dito dobrava como posto de gasolina, loja para os fazendeiros e local de parada para caminhoneiros. Uma verdadeira cidade! Resolvemos que seria lá mesmo que iríamos pernoitar, decisão mais fácil que já tomamos durante a  viagem, pelo simples fato de não haver outra opção.

O Caravan Park não estava cheio, e logo nos instalamos. Fui ao banheiro, e tomei um susto. Nunca tinha visto um banheiro tão sujo. Todos os banheiros na Austrália mesmo públicos são limpos, e alguns tão limpos que dá até pra comer no chão, mas esse estava medonho. A Celia falou o mesmo do banheiro das mulheres. Soubemos depois que a imundisse desse banheiro já criou fama na Austrália, e mesmo com administração nova, o dito continua o mesmo. Nesse Caravan Park só encontramos viajantes Australianos, e não mais turistas de várias partes do mundo viajando a Austrália. A maioria era de Grey Nomads puro sangue, como um casal que está na estrada há dez anos, o outro há 3 anos e meio. Essa Caravans que vimos, não são tão luxuosas como as do pessoal de fim de semana, mas primam por ter tudo necessário. Tudo é pratico e tudo tem o seu lugar, coisa feita para morar mesmo. Umas tinham até mesmo antenas para recepção de TV e Internet por satélite, coisa que sabemos custar mais de A$ 3000 por ano, só para manter a conexão, e é o nosso sonho de consumo futuro. Nosso carro parecia um filhote perto daquelas caravans, e nós parecíamos bebês engatinhando em assuntos de viagens comparado com eles. Uma das coisas que eles nos ensinaram, foi como lavar roupa enquanto se viaja sem o menor esforço. É o seguinte: Você pega um balde grande de plástico com uma tampa que vede bem, e põe a roupa, detergente, e a água dentro do balde, e depois tampa e põe dentro do carro. Por causa do sacolejo da estrada, quando você chegar no destino a roupa vai estar tão lavada quanto numa máquina de lavar. Depois basta tirar o sabão, torcer e botar pra secar.

Passamos o resto da tarde relaxando imersos nas piscinas de águas guente naturais, e conversando com nossos vizinhos de caravan sobre viagens e lugares da Austrália. O jantar foi peixe com purê de batatas  e legumes. Quando escureceu, o céu ficou totalmente estrelado, e era fácil ver estrelas cadentes e satélites em órbita. Amanhã iríamos finalmente chegar em Undara.

Subindo, subindo, subindo

Fazenda de criação de peixes 

Nossa Van parecia um carro de brinquedo perto das Caravans

Travessia de Cangurus de árvores

10 anos na estrada. Eles rebocam um carro 4x4 atrás

Relaxando nas picinas naturais

Innot Hot Springs - Undara Lava Tubes - 112 Km 

O dia raiou espetacular e o contraste da Savana com o céu azul e a terra vermelha estava muito bonito. Antes do café passamos cerca de 1 hora nas piscinas naturais. A mais quente tem 44 graus, e as outras 38, 36, e 32. Ficamos na de 38 porque a de 44 estava muito quente para nós. Chegaram outras cinco pessoas, todas de Adelaide, e conversamos por cerca de 20 minutos para depois retornarmos para a Van. A Celia foi entrevistar um casal que há 3 anos e meio está na estrada. Enquanto isso eu preparei duas bacias de cereal com banana e suco de laranja para o café da manhã. Na noite passada fizemos reserva para o tour das 13:00 horas nos tubos de lava de Undara, pois nos disseram que eles só aceitam reservas com 24 horas de antecedência. Como eram só 112 quilômetros até o lugar, ficamos fazendo hora e batendo papo. O casal nos disse que se não saíssemos logo, não íamos chegar à tempo. Não entendi no momento, pois ainda eram 10:00 da manhã e em 3 horas eu faria uns 250 Km, não 112. Será que eles queriam se ver livres da gente? 

No início tudo estava bem com a estrada um tapete, e a paisagem espetacular. O asfalto era meio vermelho, e quase não haviam veículos na estrada. Estava adorando aquela sensação de viajar no Outback. A temperatura era de 24 graus, e tudo estava perfeito demais. Ainda por cima estávamos indo conhecer os famosos tubos de lava de Undara. Esses tubos foram formados à cerca de 200.000 anos durante uma violenta erupção vulcânica, e são considerados os maiores do mundo. Tubos de lava são formados quando a lava despejada por um Vulcão viaja ladeira abaixo percorrendo longas distâncias. Quando a lava entra em contato com o ar, a superfície solidifica, mas dentro continua líquida e fluida. É como se fosse uma mangueira  de água aberta, e de repente corta-se a água. Depois que a erupção terminou, o tubo esvaziou e ficou só um túnel vazio. O de Undara chega a ter mais de 100 Km de comprimento e quase 20 metros de diâmetro em alguns pontos. Muitas partes já desabaram ou foram erodidas, mas sobraram muitos tubos que podem ser visitados.

Como o velho ditado..."Tudo o que é bom dura pouco", foi o que aconteceu. Em pouco tempo o céu começou a nublar, e a estrada virou uma única trilha de asfalto. Se um carro viesse da direção oposta, ambos teriam que colocar uma roda na lama. Pensei que fosse um trecho em obras, mas a coisa ficou assim pelos próximos 80 Km. A velocidade caiu para 60 Km/h, pois fiquei com medo de quebrar o carro no meio do nada. Agora tínhamos entendido porque os nossos amigos do Caravan Park falaram para saírmos mais cedo. Resolvi pisar fundo de forma que o carro passasse voando por cima dos buracos, e voilá, deu certo. Voltamos aos 110 Km/h mas tínhamos que diminuir nas curvas ou quando vinha algum carro do lado oposto. Nunca vi 112 Km levarem tanto tempo para serem percorridos, e olha que não estava chovendo.

Chegamos no trevo para Undara, e entramos no acesso de 19 Km que nos levaria ao Caravan Park do local. Ao final do primeiro quilômetro, o que restava de asfalto acabou. Os primeiros 4 quilômetros foram tranquilos, mas depois a estrada foi deteriorando, até se tornar um mar de ondas, com a Van parecendo uma britadeira. Tive que reduzir para 20 Km/h, e algumas vezes até mesmo parar por causa de alguns buracos profundos. Nesse rítimo corríamos sério risco de perder a hora do tour, mas a sorte virou pro nosso lado. Um micro ônibus da companhia que opera o tour nos ultrapassou, e isso foi nossa salvação. Passei à seguí-lo de perto, mesmo comendo poeira, pois o cara parecia conhecer cada palmo de pista. O ônibus parecia uma cobra, indo da direita para a esquerda, e nós atrás. Acelerava quando tinha um trecho bom e reduzia na buraqueira. Minha adrenalina estava a mil por seguí-lo tão de perto, e vi que ele não tirava o olho de nós através do retrovisor. Algumas vezes ele beliscava várias vezes o freio para nos alertar que vinha coisa pela frente. Com certeza ele sabia que estavamos atrasados para o tour, e estava nos dando uma força. Chegamos 30 minutos antes do tour sair, e fomos fazer o check-in no Caravan Park. Deixamos o carro já no "powered site" que dormiríamos, e em seguida pegamos as cameras e os vouchers, e seguimos apressados para o ponto de encontro do tour.

Fomos levados até a entrada dos tubos dentro de outro micro ônibus da companhia, com outros 13 turistas. O motorista que era o guía, não parava de falar besteira, e começou com aquelas baboseiras que detesto, do tipo, "De onde voce é ?". "Quem quer contar uma piada?".  "Se apresentem uns aos outros". Eu virei a cara para a janela e vi um Canguru cinza escuro bem grande que nunca tinha visto antes, mas não deu tempo de fotografa-lo, pois o motorista nem percebeu o Canguru, e não reduziu a velocidade. O bicho talvez tivesse uns 2 metros de altura e era bem forte e encorpado, com certeza um macho. Chegamos na entrada dos tubos e o guía deu algumas explicações sobre os tipos de rochas do lugar, e em seguida descemos a trilha de acesso para caverna. O cara era do tipo metido a engraçado, daqueles que faz graça com cara fechada, só que não havia a menor graça nas coisas que ele dizia, e as poucas pessoas que riam, provavelmente o faziam por educação. O sujeito ainda por cima falava para dentro, e as explicações que ele dava não eram detalhadas e muito menos acadêmicas. Eu fiz várias perguntas principalmente sobre a descoberta de 35 novas espécies de invertebrados que foram encontradas dentro dos tubos. "What Invertebrates do you mean?...Ele retrucou". Me deu vontade de responder que se ele não sabia o que eram invertebrados, eu estava falando com um.

Esses Invertebrados jamais foram vistos antes em qualquer outra caverna ou lugar no mundo, e vivem basicamente de gás carbônico. A umidade e fungos dentro da caverna cria uma concentração de CO2 duzentas vezes maior que na superfície, e é extremamente tóxica para a maioria das espécies, inclusive o homem. Por causa disso, não se pode entrar muito fundo nos tubos, e somente pesquisadores com oxigênio conseguiram ir mais além. Mesmo assim, mas de 90% da extensão total dos tubos ainda não foi explorada. Os invertebrados dalí e alguns vegetais alimentam-se exclusivamente de fezes de morcego, fungos, e CO2, o que intrigou a comunidade científica internacional. As infiltrações por todo o teto da caverna fazem com que literalmente chova lá dentro, com umidade de 98%, e temperatura  de 22 graus. O ar é extremamente pesado, abafado, e fétido. Definitivamente um lugar não muito prazeiroso de se ficar.

Eu nunca vi um guía tão ruim na minha vida. O sujeito falava e bocejava, e bocejava alto. Parecia que a qualquer momento ia deitar no chão e dormir. Cheguei a pensar que ele estivesse seriamente afetado por CO2. Ainda por cima mantinha a lanterna apontada para baixo ou desligada. Ninguém avisou sobre trazer lanterna, e sem lanterna é completamente breu lá dentro. Só o guía tinha uma. De vez em quando ele mostrava morcegos no teto, ou desenhos nas paredes, sempre de forma rápida. Quando minha retina se acostumava com a luz e meus olhos íam focar, pronto, ele já tinha apontado a lanterna para outra direção. Quase pulei no pescoço dele quando apontou para umas pedras e começou com aquela palhaçada de,,, "Isso é um urso ou a cabeça de um cachorro?". Isso é sua mãe, me deu vontade de falar. Para que eu não cometesse um tubicídio com o guía, tive que me conter. Em seguida o guía nos levou para outro tubo diferente, e finalmente ele deu algumas explicações sobre uma varas de metal que iam da base ao teto do tubo. Algums estavam retas, outras envergadas. Essas varas eram para medir a deformação do tubo. Se estivessem  muito envergadas, é porque o teto cedeu e pode desmoronar. Passei a bombardeá-lo com perguntas, e ele respondeu algumas, mas depois se voltou para o grupo e disse..." Aqueles que estiverem interessados em detalhes técnicos, temos um livro feito por uma vulcanóloga que está à venda na recepção por A$ 39. Eu só não mandei-o ao devido lugar, porque minha raiva foi tamanha, que me afastei do grupo e passei a usar o flash da minha camera digital como lanterna, e com sorte saíria uma foto prestável.. Alguns dados que escrevi aqui foram pesquisados na Internet, porque senão eu não saberia nada.

Saimos dos tubos e chovia, e isso somado a raiva que eu estava do guía acabou com o encanto do lugar. Estava pensando em fazer um passeio mais completo no dia seguinte, pois eles tem 3 passeios diferentes, O que fizemos custa A$ 40 para escutar por duas horas alguém falando besteira, e inclui visita à dois tubos. O outro tour dura meio dia, e o outro dura um dia inteiro,  onde visita-se o vulcão que gerou os tubos, e entra-se em tubos diferentes. Custa A$145 por cabeça. De qualquer forma decidimos ir embora no dia seguinte, e passamos o restante da tarde no Caravan Park. Fomos ver uns Cangurus marrons que estavam nas imediações da Van, e depois armamos o toldinho azul, pois tinha começado a garoar. Jantamos ravioli de espinafre ao molho branco, e fomos dormir cedo. Lá pelas 11 da noite, acordei com o toldo batendo no carro, e tive que ir lá fora ajeitá-lo. Chovia e ventava forte, e o reparo durou uns 5 minutos. Voltei ensopado para a cama, e depois de me enchugar bem, voltei para debaixo do cobertor. Mais uma vez, tudo o que desejávamos era o Sol, um dia de Sol, com o guía sentado dentro da cratera do vulcão um minuto antes da explosão.

Nota: Esses tubos fazem parte de um Parque Nacional, mas ficam em terras de uma família que criava gado lá desde 1840. Eles entraram num acordo com o departamento de parques nacionais, no qual cederiam as terras mas seriam os únicos autorizados à explorar o turismo nos tubos, para com isso proteger desavisados de morrer por causa do CO2. Construíram uma excelente infra estrutura com muitas facilidades, incluindo bomba de gasolina, acomodações de luxo em vagões de trem, e muitas coisas mais. Por isso não é possível explorar os tubos por conta própria. Tem-se que  pagar, e ir com um guía deles num dos tours que oferecem.

Nosso fantástico Guia

É um Cachorro? É um urso?

O bar também fica num vagão

Cangurua com filhote na bolsa Acomodações em vagões de trem E o restaurante num outro.

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